quarta-feira, 11 de julho de 2007

Por que eu gostaria de traduzir "Mein Kampf"?

Pode parecer estranho que alguém que discorde completamente das práticas nazistas e, principalmente, da ética nazista realmente acederia à empreitada de traduzir o livro de Adolf Hitler; mas há motivos para isso.

Adolf Hitler é conhecido como um grande orador. Ele empregava a retórica de tal modo que convenceu uma nação inteira a lhe seguir, ou, pelo menos, a não combatê-lo: fazia parecer que era melhor tê-lo a não tê-lo. Porém, traduzir Hitler não é, repito, não é apoiar aquele sistema hediondo, mas denunciá-lo.

Como qualquer tradução atual que se preze, ela teria um prefácio sobre o livro, o autor e alguns fatos da época. E ele diria que o livro não é para apoiar um sistema monstruoso, mas para atacá-lo em suas bases: é na reprodução da ignorância que nascem o preconceito e os sistemas ditatoriais. E é na reprodução do conhecimento que nasce o entendimento. A tradução de tal livro serviria não para incitar ódio anti-semita ou outro tipo, mas preparar os leitores do discurso hitlerista para se defenderem de outros líderes que surgirem com discursos semelhantes.

E o livro seria recheado de notas de roda pé para lembrar sempre aos leitores o resultado daquela ideologia:

"- 5.6 – 6.1 milhões de judeus (dos quais 3.0 – 3.5 milhões de judeus polacos)
- 2.5 – 3.5 milhões de polacos não-judeus
- 3.5 – 6 milhões de outros civis eslavos
- 2.5 – 4 milhões de prisioneiros de guerra (POW) soviéticos
- 1 – 1.5 milhões de dissidentes políticos
- 200 000 – 800 000 roma e sinti
- 200 000 – 300 000 deficientes
- 10 000 – 25 000 homossexuais
- 2 500 – 5 000 Testemunhas de Jeová"
(fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Holocausto#Extens.C3.A3o_do_Holocausto)

Além desses dados, resultados de uma Europa destruída, além das heranças africana e asiática, a Guerra Fria, os combates no oriente, Hiroshima e Nagasaki. E fotos. Muitas fotos. Daquelas que podem ser conseguidas com uma pesquisa simples pela internet, tanto do holocausto quanto de outras vítimas. Mais: perto de um "teatro do distanciamento", seria uma "tradução do distanciamento", que a cada momento de exarcebada retórica hitlerista que pudesse causar uma cartase ao público menos preparado chamaria o leitor à realidade com um exemplo de Hitler, Mussolini, Tojo Hideki e Hirohito ou de qualquer outro ditador como Pinochet ou Leopoldo Galtieri, que colocou a Argentina em uma guerra estúpida (não se engane, não há outro tipo de guerra) pelo controle das Ilhas Malvinas, ou de líderes atuais, sejam eles de sistemas ditatoriais como o norte-coreano Kim Yong-nam ou de democracias (como são aceitas hoje) como o presidente estados-unidense da guerra "George Walker Bush", o qual, para quem não se lembra, declarou: "I'm the war presidente".

E, por fim, os mais atentos perceberiam que Minha Luta não seria apenas pela tradução de "Mein Kampf", muito menos a denúcia repitida de dados históricos, mas pela denúncia de um holocausto crescente, contagioso e atualíssimo: o holocausto do conhecimento das táticas e da retórica espúria que permite a cada dia que novos Hitlers vestidos com a roupagem da nova moda possa acender ao poder.
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