segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

De encontros e desencontros

"A amigos ausentes, amores perdidos, velhos deuses; e à estação das brumas. E que cada um de nós dê ao demônio o que lhe é merecido!" - Neil Gaiman

Muita gente reclama da internet. Diz que isso e que aquilo. Que estraga a moral dos nossos jovens e que substitui o fator humano pela máquina. E que sem ver o outro as pessoas são menos confiáveis, e que o que importa é olho no olho. E que isso e que aquilo.

Eu estou na internet desde 1994. Quero dizer, no mundo virtual. BITNET e BBSs da vida. Coisas que alguns dos meus leitores nem sabem que existem. Isso em nada interferiu na minha moral. Ao contrário, o contato com pessoas maravilhosas e horrorosas de todo o país e algumas pessoas de fora do país, como um árabe louco que me ameaçou de morte porque eu não gostava do Romário (jogador de futebol), expandiu meus horizontes e foi meu primeiro passo para me tornar cidadão do mundo.

A internet, até a alguns anos atrás resumia-se a sites de consulta e msn. Aí surgiram os sites de relacionamento: MySpace, FaceBook, Orkut, entre outros. Eu participo do Orkut há anos, e ele me trouxe de volta várias pessoas maravilhosas à minha vida. E aproximou outras com quem não perdi contato, mas cujo contato é difícil. Recentemente, a internet me voltou mais uma pessoa! "Pfeiffer" é como a conhecia. Bem legal ver como ela e eu evoluímos nos últimos 14 anos.

Internet não é um instrumento do demônio para desumanizar a humanidade. É um instrumento humano que, se bem utilizado, leva mais que ao encontro do outro, mas ao encontro de si mesmo nessa busca do mundo. Para tanto, é preciso sobre uma reflexão sobre a prática do uso e do que se encontra na rede. Assim como para crescer como ser humano é necessária essa reflexão crítica sobre tudo o que se faz na vida.

Entendam: um lixeiro que tenha uma reflexão crítica sobre sua prática profissional e sua prática de vida será mais humano que um doutor em filosofia que não tenha a mesma reflexão sobre esses tema, mesmo que possua uma reflexão lógica perfeita sobre os grandes temas da filosofia acadêmica.

Então conectem-se a si mesmos, através de uma prática saudável de vida e da reflexão crítica da mesma, e assim perceberão que se conectarão ao mundo de uma forma única, estimulante e viva.

E, para a Pfeiffer, fica um verso do Vinícius de Moraes: "a vida é a arte do encontro, apesar de haver tanto desencontro pela vida". É um prazer reconhecê-la! :)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Quem tem a sua cidade?

Durante algum tempo eu tenho me recusado a escrever diretamente sobre política partidária. É óbvio que isso não significa não versar sobre política, pois toda forma de intervenção no mundo é um ato político, seja ela se vestir, votar ou manter esse blog. Mas hoje eu falarei um pouco sobre isso.

Sou de Belo Horizonte e hoje resido aqui. Recetemente houveram eleições municipais em todos os municípios do país e os eleitores decidiram que os governariam pelo próximos 4 anos, e quem fariam as leis municipais pelo mesmo período. E é aí que se encontra todo o problema.

Apesar do esforço do governo federal em produzir propagandas interessante como as que você pode encontrar aqui: http://www.youtube.com/results?search_query=%22vota+brasil%22&search_type=&aq=f, foram para o segundo turno em BH os candidatos Leonardo Quintão e Márcio Lacerda.

Fala sério, né? Não que a média de qualidade dos candidatos fosse boa. Mas escolher os piores é demais! Isso é resultado de uma cultura coronelista e paternalista extremamente arraigada nas bases de nossa sociedade. Povo burro não é aquele que não tem instrução formal, mas aquele que permite que essa corja se perpetue no poder. O sujeito que ganhou dizia em sua propaganda que trazia coisas novas e que era o candidato da continuidade. Olha, não é preciso ter um Prêmio Nobel para saber que uma coisa é antagônica à outra! Não precisa ter um nível superior! Aliás, não precisa nem ter nível fundamental! Basta entender a língua. Se é novo, não é continuação. Não tem muito segredo.

Já o outro candidato foi flagrado em uma convenção do partido, ou algo assim, gritando "vamos ganhar e vamos dar um chute na bunda deles" em uma entonação que parecia de pregação religiosa e com todo um aparato imagético-corporal, ou seja, fazendo um gesto extremamente agressivo de "chutar a bunda".

A coisa está feia, mas está exatamente do jeito queo povo quer! Essa corja de salafrários representa muito bem o povo que o eleje. Não há como dizer se outro candidato seria melhor ou pior, mas mais uma vez, não é preciso nem ter concluído o nível fundamental para saber que se foi ruim uma vez, será de novo. Se é assim, por que não votar em um desconhecido? É só pensar em inovar: aquele é ruim, aquele outro também... já esse aqui eu não conheço.. hum.. entre a certeza de me dar mal e uma pequena chance de me dar bem, eu fico com.. hum... olha que difícil escolher... acho que vou... acho que vou... apostar na certeza de me dar mal!

Povo burro é isso! É aquele que ao invés de reinvidicar o que quer, ou o que é certo, ou ambos, fica calado frente às atrocidades cuecais de milhares de dólares e ainda vota no patrão ou no aliado do sujeito. BH tem Lacerda, Rio tem Paes e Sampa tem Kassab. Me conte: quem tem a sua cidade?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Escotimo Mundial lança parceria tecnológica com a World Community Grid

Genebra - 2 de agosto de 2007

Se você associa Escotismo apenas com acampamento e nós, pense de novo! Como parte das Celebrações do Século, o Escotismo Mundial lançou hoje um parceiria com a World Community Grid em um esforço conjunto para criar um mundo melhor através da tecnologia da informação.

A missão da World Community Grid é criar a maior rede mundial de processamento distribuído para apoiar projetos que benificiem a humanidade. Escoteiros com acesso à internet serão encorajados a aderir como membros na nova equipe "SCOUTS" criado na World Community Grid, contribuindo com a capacidade de processamento não utilizada de seu computador com o esforço global.

Milhões de computadores pessoais ficam parados nos escritórios e casas de todo o mundo. Enquanto eles estão ociosos, centenas de pessoas contraem e morrem de doenças infecciosas a cada hora. Enquanto protetores de tela rodam, milhões morrem de fome , ou desastres naturais devastam comunidades inteiras. Mas isso não precisa ser assim, e o escotismo mundial está aceitando o desafio!

A World Community Grid utiliza a tecnologia de processamento distribuído para estabelecer uma infra-estrutura permanente e flexível que prova aos cientistas com um conjunto disponível de poder computadocional que pode ser usado para resolver os problemas que flagelam a humanidade. O processamento distribuído utiliza vários computadores individuais, criando um grande sistema com um enorme poder computadocional que em muito excede o poder de alguns supercomputadores. Doando o tempo ocioso o qual o seu computador já está ligado, você dá suporte a projetos que beneficia a todos! Desde que foi lançado em 2004, essa comunidade virtual de voluntários já somou mais de 100 mil anos de tempo de uso, provendo mais de 100 milhões de resultados a cientistas que ajudam na luta contra o câncer, a distrofia muscular, a AIDS e outras doenças.

"Estamos convocando os atuais e antigos membros a aderir à equipe "SCOUTS" na World Community Grid como parte da contribuição de nosso movimento para criar um mundo melhor", anunciou o Dr. Eduardo Missoni, Secretário Geral da Organização Mundial do Movimento Escoteiro, no momento do lançamento da parceiria. "A World Community Grid provê nossos membros com um modo eficiente e efetivo de, no mundo moderno, fazer real diferença contra os problemas que flagelam a humanidade. E é educacional - os jovens podem aprender mais sobre o por quê dessas pesquisas serem tão importantes para toda a humanidade."

FightAIDS@Home é um bom exemplo. O projeto contemplado do Scripps Research Institute utiliza rotinas computadocionais para identificar novas drogas para bloquear a protease do HIV, uma chave molecular que quando bloqueada interrompe a maturação do vírus, o que previne o desenvolvimento da AIDS e prolonga a vida do portador.

Para aderir, deve-se ir a www.worldcommunitygrid.org e simplesmente baixar e instalar um pequeno programa livre em sei computador.

"Uma vez que você tenha instalado o programa, você pode aderir à equipe 'SCOUTS' e participar dos projetos da World Community Grid sempre que ligar seu computador", explica Ray Saunders, Diretor de Tecnologia da Informação do Escotismo Mundial. "O programa livre está disponível para os sistemas operacionais Windows, Mac OS X e Linux/BSD. Mais importante: a World Community Grid é leve e segura para ser usado pelos jovens."

Quando ociosos, os computadores solicitam dados de um projeto específico ao servidor da World Community Grid. Após realizar os cálculos, retorna os resultados e solicita uma nova tarefa. Cada resultado fornece aos cientistas informações importantes que aceleram dramaticalmente o andamento da pesquisa! As tarefas completadas somam pontos ao placar da equipe "SCOUTS", o qual será utilizado para mensurar a contribuição que os Escoteiros do mundo estão fazendo para os projetos de pesquisa global.

Texto original disponível em:
http://www.scout.org/en/information_events/news/2007/partnership_with_world_community_grid

Tradução de:
Antônio Hezir Gomes Ribeiro Guimarães
39º/MG Grupo Escoteiro Santo Agostinho

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

E o tempo passa...

Hoje, dia 22 de novembro de 2008, faz exatamente um ano que pisei na Cidade de Minas vindo de Nossa Senhora do Desterro, abandonando um curso superior com mais de 90% das disciplinas concluídas e muita infelicidade vivida.

Durante os último 365 dias, eu vivenciei muitas coisas. Sucessos e fracasso. Ouvi um médico dizer que meu pai não deve ter uma sobrevida longa. Estou tendo vários feedbacks negativos da minha mãe e às vezes me sinto muito mal. Tive uma namorada que me fez muito bem antes de namorarmos e muito mal durante e depois do namoro, principalmente no fim.

Mas a análise que posso fazer desse ano é que foi um ano MUITO bom. Eu creci como pessoa. E investi em mim. Emagreci mais de 5 quilos, me associei com pessoas certas na vida profissional e na pessoal. Tenho, talvez pela primeira vez em muitos anos, uma perspectiva profissional real. Estou fazendo planos para o futuro. Estou aliando ao meu discurso uma prática de vida saudável e sustentável e percebo que minha vidatem se encaixado, no sentido que todas as coisas que faço e busco estão se encaixando, como se fosse uma coisa una, o que, aliás, o é!

Não consigo, ainda, fazer tudo o que quero, e ainda me falta muito o que crescer e fazer. Mas sabe quando tudo está latente, e é um aqueles momentos críticos: ou vai ou racha? Estou nele. E, apesar de manter meu nível de expectativa baixo, eu estou acreditando que vai! inhas projeções são otimistas (se fossem pessimistas eu nem ia em frente), mas não em demasia. Eu tenho feito projeçoes positivas e realistas, plausíveis.

Como um todo, começo a acreditar que minha volta de Floripa seja mais importante para minha vida que minha ida para Floripa. Mas que essa experiência, por pior que tenha sido, me trouxe coisas e pessoas maravilhosas que me fizeram bem. Não as nomearei aqui, e justificarei com o clichê que fazendo-o eu certamente esquecerei alguém.

Nesse ano, eu consegui me reestruturar como ser humano, e apesar de ainda estar um pouco fraco, eu tenho me fortalecido. Devo muito disso a alguns poucos amigos especiais. Muitos outros me ajudaram em menor escala, e todos foram importantes. Pra mim, fica que 2008 foi "o ano da fênix".

Que 2009 seja do crescimento!

Belo Horizonte, 22 de novembro de 2008.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Sobre Filosofia e dia-a-dia

Quase sempre que eu falo que estudei 1,5 ano de Filosofia na UFMG ou que uma das áreas da Letras que mais me agrada é a Filosofia da Linguagem, eu ouço que "filosofia é complicada" ou "filosofia é difícil". E eu sempre discordo disso.

O leitor leigo pode dizer que eu discordo porque eu estudei, e tive tempo para debater todos aqueles filósofos com nomes difíceis, como Nietzsche, Schopenhauer e Wittgenstein. E que aprendi o suficiente para lê-los no original. Mas é aí que se enganam. Ler filósofos antigos não é filosofia, mas história da filosofia. Eu acho certos temas abordados por alguns filósofos, e a forma como eles abordam, interessantes. Mas como um todo, encontramos pérolas da chatice universal, como dizia Paulo Margutti, professor de Lógica Formal da UFMG no ido ano 2000.

Porém, é preciso perceber que filosofia é uma prática reflexiva, e que não se resume aos "grandes temas" do estudo acadêmico da disciplina. Qualquer tipo de observação do mundo seguida, imediatamente ou não, de uma reflexão crítica lógica é uma prática filosfófica. Desde o olhar de uma criança frente à imensidão do mar até a reflexão mais profunda de um filósofo sobre estética ou metafísica: tudo é tema da filosofia e tudo o que é reflexão crítica lógica é filosofia, sim.

Independe do conhecimento dos cânones como Russel ou Aristóteles. Independe de idade ou gênero. Independe de instrução formal. Independe de ética. Independe de etnia. Independe de qualquer fator que não seja a capacidade da reflexão lógica.

Aliás, muito do que temos como ditados populares são frases de filósofos cânones. "O que não me mata me torna mais forte" é Nietzsche e "a beleza está nos olhos de quem a vê" é a simplificação de um conceito de Kant. Isso significa que filosofia está no nosso dia-a-dia sem que percebamos.

E, sem que percebamos, fazemos cálculos lógicos complexos, e acertamos na maioria das vezes. Falamos que o sistema de transporte coletivo é ruim, damos os motivos, sugerimos modificações e explanamos o porque dessa modificações e, às vezes, como e onde fazê-las. E isso tudo com o estranho que, por um acaso, está sentado ao seu lado em um ônibus lotado parado no engarrafamento nosso de cada dia. Por menos que pareça, isso não passa de prática filosófica aplicada ao dia-a-dia.

E todas as sugestões advindas de nossa reflexão sobre nossa experiência profissional de como melhorar o serviço que não temos coragem de contar ao chefe, mas comentamos com o colega e descobrimos que ele concorda e que já pensava exatamente aquilo? Prática filosófica sobre nosso trabalho.

E assim vai uma infindável lista de filosofia aplicada que fazemos no nosso dia-a-dia, e que fazemos desde o momento em que adquirimos uma língua.

Dominar um dos grande temas da filosofia acadêmica talvez seja complicado, mas não mais que o domínio de um marceneiro experiente sobre a madeira: ambos são resultados de dedicação. Filosofia não é complicada ou difícil. Filosofia é uma prática humana recorrente e permanente a todos os seres humanos. E mais vulgar do que supõe nosso vão senso comum.

Belo Horizonte, 8 de agosto de 2008.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

E aí, negão?

Tá, o negão ganhou! Grandes coisas! Muita gente colocou na figura de Obama uma esperança quase sem limite. O mundo acompanhou a eleição. Umas preocupadas com o próprio futuro, apesar de morarem no interior do interior do interior de um país cujo nome eu nem sei, outras para tentar fiscalizar a eleição mais confusa do mundo, a estados-unidense. Afinal, o EUA é um país que não possui unidade eleitoral para os cargos federais: cada estado vota da forma como quer, o que dificuta a fiscalização e permite manipulações bizarras do sistema, como a que aconteceu em 2000, na primeira vitória de G. W. Bush, com a anulação dos votos sde vários distritos negros da Flórida e em 2004 com o cancelamento do registro de eleitor de partidário anti-Bush.

Mas será que vai mudar? Bem, alguma coisa sempre muda. Alguma coisa pra melhor e alguma coisa pra pior. Barack Obama não é a solução do mundo. Não é o consertador de tudo. Obama não passa de um homem comum, com qualidades e defeitos. Pode parecer moderno, mas é um intelectual como FHC, professor universitário e coisas do gênero. FHC, aliás, já foi o sonho do Brasil. Algumas coisas mudaram para melhor, outras para pior.

No fundo, o presidente de qualquer país que conte com um parlamento e um sistema judicial estabelecido não tem como fazer milagre. Milagre que, aliás, é da alçada divina, e não da humana. O negão pode, até, apontar novos rumos para seu povo. Mas uma coisa é uma pessoa se mover, outra é o leviatã estatal. No Brasil, lembrem-se, "a esperança venceu o medo". E algumas coisas mudaram para melhor, e outras para pior. Normal.

Esperança é isso: é uma espera. E o povo estados-unidense é exatamente igual ao brasileiro: um povo que espera. Espera seu Sebastião. E Obama não é ele. O romantismo inerente ao ser humano, devido ao seu elemento onírico é mais uma vez explorado de forma vil. E, pasmem, quem o explorou melhor foi Obama, e não McCain. Sim, explorou. Ele tinha uma equipe bem preparada para isso. E, não, ele não é bonzinho. Ele é um político profissional que não chegou aonde chegou aplicando mandamentos escoteiros.

E agora, findada a campanha, ele vai ter que pagar o preço de suas alianças. Seu principal adversário já perguntava da onde vinha a verba que Obama aceitou e que não era de financiamento público. A pergunta cabe. Da onde vem?

Outra coisa para se prestar atenção é que Obama não é um idealista. Fosse, seria um dos 14 candidatos que nunca ouvimos falar, de partidos pequenos. Não. Ele era o candidato de um dos dois partidos gigantes, Democrata e Republicano. E qual a diferença entre os dois? Bem, um é de direita, o outro é de direita, bem ao estilo fast-food tão difundido naquele país.

Enfim, Barack Obama não é o salvador do mundo, nem mesmo o salvador do EUA. É um candidato padrão do Partido Democrata, assim como o era Bill Clinton, que também não salvou o mundo.

Ah! Mas ele é negão. Hum... Sim, é negão de Havard e 5. Avenida. Os interesses dele não são os interesses dos negros dos guetos, mas dos brancos da Broadway.

Barack Obama é um político padrão.

08 de novembro de 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O "verdadeiro" evangelho segundo José

[Aviso aos incautos: esse texto é uma FICÇÃO, assim como a bíblia, então não me venham com chorumelas!]

Há alguns dias minha esposa, Maria, começou a me tratar diferente. Eu sempre entendi a situação dela, e me casei com ela porque ela é uma viúva jovem, sem filhos e ainda virgem, e eu, também viúvo, precisava de uma mulher boa para me ajudar a criar meus filhos. Eu sempre respeitei o luto dela, e ela nunca recusou meu toque de carinho. Dormíamos abraçados nas noites frias. Mas isso não acontece há alguns dias, e tem feito frio.

Ontem me apareceu um anjo do senhor. Ele me disse para ter paciência, pois Maria, minha querida Maria, a qual eu aprendera a amar nesses últimos meses, estava grávida, e esse era o motivo de ela estar me tratando estranho. Disse o tal anjo que não era para eu me preocupar, pois ela ainda era virgem, que estava grávida do Espírito Santo, e que seu filho seria o tão aguardado messias, e que eu deveria cuidar do Deus vivo como se fosse meu filho.

Num primeiro momento eu até gostei da notícia. Me alegrei por poder servir meu Deus, e comecei a planejar a vida do moleque. Daria a ele o nome de Emanuel, como previsto que seria o nome do messias.

Mas, então, numa noite a sós ao pé de uma fogueira, tudo mudou. Eu percebi que o Deus que eu servira era um escroto. Que ele me traiu com minha própria esposa, e que ainda queria que eu apoiasse isso criando o messias. Aquele sentimento tão humano de se sentir traído me consumiu e percebi que em mim nascia um outro, ou melhor, saía do ovo um outro José, que estava sendo encubado há décadas. Um José forte e que sabia combater seus inimigos.

Mas, então, veio a dúvida: como combater um inimigo que é o criador de tudo o que existe? E que todo mundo acredita ser bom? A única coisa que consegui pensar foi: "O inimigo de meu inimigo é meu amigo". Parti, então, para Jerusalém e Belém para procurar textos obscuros da cabala. Levei minha esposa numa mula. Encontrei o que queria e, então, viajei mais um pouco com eles para encontrar os ingredientes certos.

Mas o principal ingrediente eu já tinha: meu ódio! E numa noite, enquanto Maria dormia tranquila, me afastei com um carneiro que comprei para essa situação e sacrifiquei-o a Satanás, aquele que conhece a luz e a sombra, coisa que passei a conhecer no momento que aquele escroto do Javé me traiu com minha mulher, sem nem ao menos ela ter consentido. Fosse ele judeu, seria apedrejado por estupro!

E apareceu-me o dito-cujo: o primeiro dos caídos, antes Lúcifer, agora Satã. E conversamos amigavelmente. Sabem que ele é um sujeito divertido? Ele me contou sua visão dos acontecidos. Não sei bem se ele tinha razão, mas não me parece mais tão mau. Me parece, aliás, um concorrente bem ao tipo de Jeová: conhecedor da luz e da sombra, e bem escroto. Mas ele não quer mandar nos homens: quer que os homens possam fazer o que querem. E, pasmem, nunca estuprou mulher nenhuma pra por um filho no mundo: foram todos concebidos com consentimento.

Ali começamos a acertar os detalhes de nosso plano sórdido. Combinamos enviar o moleque pro oriente, onde os deuses eram muitos e eram bons e maus. E onde ele aprenderia a ser um milagreiro. Sim! Um milagreiro. E decidimos seu nome: Jesus. Um nome comum. E um pouco do seu destino. Satã colocaria em seu caminho um jovem de sua própria lavra, chamado Pedro, para que ele conquistasse a confiança de Jesus, que já não era Emanuel. E Satã acertou com Caifaz a morte de Jesus, que seria horrenda, como deve ser a morte dos bastardos.

O que aconteceu, ou algo próximo daquilo, você puderam ler nos escritos de Marcos, Lucas, Mateus e Tiago. Mas, de todos, pensem em uma frase: "Pedro, tu és pedra e sobre ti edificarei minha igreja!".

Quanto a mim e Maria tudo melhorou. Tivemos filhos legítimos e fomos felizes. Ela até chorou na morte do bastardo, que era filho dela, mas não meu. Mas, sabem, foi nos meus carinhos que ela procurou consolo, não nos do estuprador.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Sobre sistema e rebeldia

Nos meios que frequênto, muito se fala sobre sistema e sobre rebeldia contra esses sistema. Bem, de certa forma eu sempre fui um rebelde por não concordar com o sistema. Por outro lado, só recentemente eu entendi muitas das minhas atitudes e percebo que, só agora, eu tenho alguma condição de me rebelar de verdade.

O sistema não é seu discurso, mas sua prática. E não se enganem! Não existe um grupo de pessoas super-poderosas que manda em tudo. Nós somos partes integrantes dele. E mesmo que as pessoas poderosas em qualquer sistema tenham uma grande capacidade de interferência, eles dependem, no mínimo, da nossa conivência, no máximo, do nosso apoio declarado. Li uma vez, não lembro o autor, que "a elite de um país é seu povo". Mais do que nunca eu acredito nisso. Seja num sistema ditatorial ou democrático, quem está nos cargos de governança conta com a conivência da população que os apoia diretamente através de protestos favoráveis, seja indiretamente através do silêncio. Todos são responsáveis.

Assim também é "mercado". Ora! Não existe um ente ontológico senciente chamado "mercado". Ele não decide nada. Quem decide somos nós, homo "sapiens", que aderimos e propagamos esse sistema e, assim, abrimos mão de coisas que nos são caras para "gerar riqueza", sem nos questionarmos o que é riqueza, a quem interessa isso e pra onde ela vai.

Entendam: não sou contra os confortos da vida contemporânea. Ao contrário. Esse texto está sendo escrito em um notebook de design arrojado (como definido por um amigo), na mesa de um aeroporto esperando uma amiga gaúcha chegar.

O que é preciso prestar atenção é que esse tal sistema ele determina um monte de coisas, inclusive a forma de se rebelar contra ele.

Quando eu tinha meus 15 anos, eu matava aula para beber no bar em frente ao CEFET-MG. E achava que estava arrasando. E meu colegas também achavam isso. Ao menos a maioria. Que eu era O rebelde foda. Aham. Hoje eu vejo que eu nada fazia o que esse tal sistema não desejasse. Vejam bem: o professor era mal treinado (felizmente não todos) e desestimulado (mais uma vez, felizmente não todos); o equipamento era ruim (e olha que o do CEFET-MG era um dos melhores) e os livros didáticos bitolantes, massacrantes. Nada mais justo que eu matasse aula para consumir minha droga preferida (o álcool). Mas a quem isso atendia? A mim? Hoje creio que não, apesar de na época eu ter sido "o famoso", hoje eu acho que eu era "o babaca".

Então eu percebi, não naquela época, mas depois, que o que tem que ser combatido não é "o sistema", mas facetas deles. Isso significa não escolher um inimigo invisível e incombatível, mas melhorar a própria prática de vida para ajustá-la ao meu próprio discurso. Algo completamente plausível. E, então, percebi-me um rebelde, pela primeira vez, consciente.

Talvez isso tenha sido durante a gestão Desconstruindo Babel, do DA-Letras da UFMG, da qual tive o privilégio de participar. Junto com pessoas maravilhosas, rompemos com uma prática de movimento estudantil cuja tônica era utilizar o espaço do DA para consumir drogas ilícitas, o que afastava vários acadêmicos do DA e contruímos um espaço de convivência e aceitação com pessoas de idéias diferente e cursos diferentes. Éramos frequentados por pessoss de várias faculdades da UFMG (como o Instituto de Geociências, o Instituto de Ciencias Exatas, a Escola de Belas Artes, a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e a Biblioteconomia), visitados constantemente por funcionários da Faculdade de Letras e ocasionalmente pela própria diretora da faculdade. Trabalhamos em prol do curso, realizando várias pequenas conquistas que, muitas vezes invisíveis, melhoravam a vida dos alunos e potencializavam seu aprendizado. Demos total liberdade à comissão editorial do Estilingue, nosso jornal, cujas únicas orientações nossas eram não ter textos político-partidários e manter um nível alto de qualidade, orientações pró-forma, pois a referida comissão editorial já tinha essa intenção e executou seu trabalho à maestria. Ajudamos a financiar viagens de alunos da Letras para congressos, remobiliamos o DA e colocamos à disposição de qualquer aluno o computador para a elaboração e impressão de trabalho. Isso tudo com dinheiro público, ou seja, retornamos ao aluno o dinheiro que já era dele. Fomos a primeira gestão que, em anos, fez uma prestação de contas com o mínimo de qualidade técnica, tanto contábil quanto de realizações e entregamos o DA à próxima gestão com todos os documento e atas devidamente registrados. Durante esse ano, eu fui um rebelde. Me rebelei contra a forma pré-definida de se rebelar.

No dia em que me torno mais próximo dos 30 anos do que dos 29, eu posso falar, enfim, sobre o que é rebeldia. Rebeldia é o ato de tomar a própria vida nas mãos, de vivê-la de acordo com o que se acredita ser bom, sem seguir cegamente qualquer doutrina, sem se isolar das pessoas e sem comprar um sistema que interessa apenas a uns poucos. Rebelar-se não é cometar atos ilícitos por eles serem ilícitos, ou encher a cabeça de drogas "porque eu posso", mas é saber porque se faz cada coisa. É ter consciência de seu ser completo e viver bem com isso.

Por isso, meus amigos, vivam bem e felizes! E tenham certeza de que esse é o maior ato de rebeldia num mundo que faz tudo pra te ver mal.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

"ADO-ADO-ADO: Cada um no seu quadrado!"

Recentemente muita coisa boa e ruim me aconteceu. Entre elas, eu gostaria de comentar sobre uma pessoa. Sem nomes nem nada. Algumas pessoas saberão quem é, outras não. E expô-la cruelmente ao mundo não é meu objetivo.

Conheci a pessoa há pouco mais de um mês, não perfazendo dois ainda. Ela apareceu na minha vida do nada e me ajudou a crescer muito. Decidimos ter um relacionamento, o qual ela achou ser melhor para ela não manter. Fiz o que me coube: entender e aceitar. De certa forma, esse texto é pra ela.

Ela tem repetido muito a frase título desse post, na tentativa de encontrar seu próprio quadrado. Pensando muito nisso, eu desenvolvi a "Teoria Sociológica dos Quadrados".

Existe um sistema. Ele diz coisas, e faz outras. A base da vida não é o que se diz, mas o que se faz. Eu, por exemplo, aprendi a não confiar em palavras, mas em ações. E é por elas, as ações de cada pessoa, que eu escolho de quem eu permaneço próximo ou não.

A sociedade é um sistema de interesses. E a minha pergunta é: a quem interessa que cada um esteja sozinho em seu quadrado? Pensando mais a fundo: a quem interessa que existam tais quadrados? E pensando mais estética-geometricamente: a quem interessa que sejam quadrados?

A minha "Teoria Sociológica dos Quadrados" diz que cada pessoa tem seu próprio pequeno quadrado, no qual pensa que manda como um rei em seu castelo. Mas diz também que esses estão muito próximos, e que aproximamos nossos quadrados dos quadrados de quem estamos perto, fazendo assim, novos quadrados maiores que são compostos por e contém quadrados menores, os individuais. Os pequenos grupos assim formados, como uma familia, no qual o homem e a mulher (ou o homem e o homem, ou a mulher e a mulher) uniram seus quadrados formando um maior, mas fazendo questão de manter suas próprias barreiras em seus próprios quadrados, se unem a outros, como por exemplo, um casal de vizinhos. E assim mais um quadrado é formado por outros dois, que por sua vez são formados por outros dois. Então cada pessoa tem seu quadrado, e une esse quadrado aos quadrados de outras pessoas, como num condomínio, que, por sua vez, une o quadrado condomínio aos quadrados dos demais condomínios formando o quadrado rua, que se une aos quadrados das outras ruas formando o quadrado cidade, que se une aos outros quadrados cidades formando o quadrado estado, o qual se une aos outros quadrados estado formando o quadrado país, o qual se une a outros quadrados países formando o quadrado mundo. Não irei além, pois prefiro não especular sobre a existência ou não de ETs, gnomos, anjos ou deuses.

No fundo, isso não passa de uma babaquice de um sistema que prega uma pseudo-independência a seres de uma espécie que é naturalmente social e dependente. Não nos associamos uns aos outros porque os achamos bonitinhos, mas porque o grupo oferece conforto e segurança. Nos associamos a nossos iguais: aqueles que vêm da mesma região, que têm um código ético semelhante, que têm práticas de vida semelhantes. Isso é natural. Diante disso, o discurso da independência não pode em hipótese nenhuma atender ao ser humano de qualquer lugar, classe sócio-econômica, etnia, opção ética ect.

Isolar-se em seu quadrado é isolar-se do mundo. Recusar visitar o quadrado do outro e recusar que o outro visite o seu é recusar sua própria condição de ser humano em nome de comprar um discurso que não atende às suas necessidades básicas. O ser humano é basicamente colaborativo.

Nos primórdios de nossa espécie colaboramos em nosso grupo para conseguir comida, encontrar abrigo, defender-nos de outras espécies e manter o fogo aceso. Num segundo momento, competimos contra outros grupos de nossa própria espécie ancestral. Porém, sempre mostrou-se mais vantajoso a colaboração que a competição. "ADO-ADO-ADO: Cada um no seu quadrado!" é o típico tema da competição.

Delimita-se o espaço próprio, impedindo que o outro aproxime-se e afasta-se qualquer um que desafie as fronteiras do quadrado. Quadrado que, aliás, é uma forma geométrica agressiva, com pontas e extremamente massificante, pois todos podem ser definidos como lxl. Se há de ter formas, que sejam círculos. Ou melhor, que não tenham formas, que não se prenda, que sejam amorfos e mutantes. E mais, que hajam interseções. E que essas interseções sejam prioritárias, pois é na relação fenomenológica que se define quem se é e qual sua função aqui. E que de amorfo intersecionado ele torne-se imperceptível, e que o imperceptível torne-se nada, pois é isso que é: uma invenção bizarra que não interessa ao fazer humano.

"Um outro mundo é possível." Um mundo sem quadrados. Um mundo sem círculos ou espaços próprios mesmo que amorfos. Um mundo de interseções vivas e atuantes. Um mundo onde o eu e o outro convivem (ou vivem com) e conversam (ou versam com), sem monólogos, mas cheios de diálogos, sem tolerância, mas com aceitação.

Ninguém está sozinho. O mundo é de todos e o desafio e o prazer da vida é aceitar ser feliz e que o outro seja feliz vivendo lado-a-lado.

"ADO-ADO-ADO: Cada um no seu quadrado!" é o caralho!

Belo Horizonte, 8 de outubro de 2008.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Sobre a efemeridade da vida e modos sustentáveis de vida

A vida é efêmera. E frágil.

Já a algum tempo ela tem me estapeado com isso. Só nesse ano vi um amigo perder o tio e o pai. Ambos jovens (menos de 60 anos). Isso, e a doença de meu pai, que em menos de 1 mês foi internado três vezes, me fez, e me faz, pensar muito sobre o meu tempo aqui. Tolkien disse na voz de Gandalf que não nos cabe saber quanto tempo teremos nesse mundo, mas o que fazer com o tempo que nos é dado.

E essa é a minha questão. O que estamos fazendo com nosso tempo? O que eu faço com o meu? Isso atende às minhas necessidades? Das mais íntimas e específicas às mais sociais e vulgares? Aonde as escolhas que eu faço hoje me levarão amanhã? As coisas que dou importância hoje e que tomam a maior parte do meu tempo são as mais importantes para mim?

Observando meus amigos eu percebi que pessoas maravilhosas e que eram bem equilibradas passaram, num prazo curto, a serem medicadas por causa de distúrbios psiquiátricos, sendo o campeão de diagnósticos o Distúrbio Bipolar. Por serem muitos conhecidos, e alguns amigos, eu descartei a possibilidade de toda uma gama de médicos estarem errados. Alguns podem estar, mas todos? Claro que não é impossível que haja alguma cultura recente entre esses especialistas da medicina que todos os seres humanos precisem de psicotrópicos. Mas entre o surto coletivo de Alienistas de Machado de Assis e a razão da probabilidade, decidi ter fé na segunda.

Eliminado, então, o erro médico em massa da equação, restou-me olhar para os meus conhecidos e observá-los. Percebi que suas vidas estavam indo pro buraco, exatamente como a vaca vai para o brejo. Eles estavam extremamente pressionados na universidade e/ou no trabalho, com problemas familiares e amorosos. Mas esses mesmos problemas se amenizavam nos fins de semana sendo que a única mudança é que não havia trabalho ou universidade.

Comecei, então a observar a rotina durante a semana dessas pessoas. Era sempre corrida. Dormindo menos de oito horas por dia, sem tempo de se alimentarem direito, sem diversão, sem momentos de intimidade com outras pessoas e com ela mesma. Era uma doação ao sistema de forma que não vale a pena. Não vale porque não vale mesmo! Eram escolhas feitas por elas que não as atendiam.

Quando se fala sobre modo de vida sustentável, fala-se sobre como prezervar o meio-ambiente, produzindo menos lixo e priorizando culturas sem agrotóxicos, as culturas orgâncias. Fala-se de academias: malhar é a moda do momento há uns 10 anos. Mas muito pouco fala-se sobre o que importa.

Quando eu penso sobre modo de vida sustentável, eu penso em um modo de vida que me permita viver até meus 90 anos (não sei porque, mas acredito que morrerei com 88) de forma saudável, envelhecendo bem e feliz, lúcido e indo com minha esposa a bailes da terceira idade até o meu último dia. É claro que uma dieta saudável e exercícios físicos fazem parte disso, bem como a sustentabilidade do meio-ambiente, pois quero que daqui 60 anos haja um mundo para que eu viva e o curta. Mas o que eu percebo que vai me dar isso mesmo é minha mudança de foco para a sustentabilidade do meu próprio corpo e da minha psiquê. É insistentável trabalhar 10 horas TODOS os dias. É insustentável deixar de ver quem eu gosto ou desmarcar um compromisso pessoal em virtude de um compromisso de trabalho pra atender a um chefe ou um cliente desorganizado. É insustentável me frustrar afetiva ou amorosamente em nome de uma empresa que nem minha é, para gerar riqueza para outro. E se fosse minha, é insustentável à minha visão de ser humano dar mais valor àquilo que não passa de vidro e metal do na vida é prazer e bem-viver.

Modo de vida sustentável para mim é frear a loucura da vida contemporânea. É parar todo dia por uns 20 minutos para fazer nada, ou melhor, para meditar. É praticar o ócio crativo. É Comer com calma e com o celular desligado. É sorrir e falar bom dia, mesmo que o meu dia não esteja bom. É não tentar ser Atlas e me permitir ser forte o suficiente para chorar no colo dos amigos quando for necessário. E não ser babaca de não oferecer meu colo quando meus amigos precisam. É ao telefonema de um amigo se colocar à disposição de matar a prova pra ir conversar com ele pelo simples motivo de que ele precisa (a agradecê-lo por dizer que você deve fazer a prova e, então, ir). Sustentabilidade é sair de casa às 11 da noite pra ir pra casa de um amigo cujo pai falesceu, sem se preocupar como estará para trabalhar no outro dia. Sustentabilidade é aceitar todos os seres indiscriminadamente e combater todo e qualquer tipo de preconceito e discriminação. Sustentabilidade é viver a plenitude da vida, aceitando seu trabalho como forma de interferência política no mundo, usando-o para melhorar efetivamente a sua vida e a de outras pessoas, mas sem se anular enquanto ser humano. Sustentabilidade é dizer ao seu trabalho e ao seu estudo que você é mais que um robô senciente ou um número de matrícula.

Sustentabilidade é, enfim, uma maneira de viver bem e feliz, consigo mesmo e com os outros, aliando sua prática ao seu discurso, sem atrapalhar aos outros e, sempre que possível ajudando-os, protegendo sua casa de si mesmo, ou seja, seu planeta de seus próprios abusos, percebendo em cada ser vivo um igual, com direito à vida e à dignidade, mantendo suas duas únicas posses verdadeiras, seu corpo e sua palavra, em bom estado e confiáveis, convivendo com pessoas e fazendo parte de grupos cujos você apóie e que também te apóiem.

Então, amigos, é isso. Olhem para a própria vida e observem se, na prática, vocês estão priorizando o que lhes é realmente importante, tanto no tempo quanto no esforço demandado. E se não estiverem, tenham certeza de alguns direitos seus:

Todo mundo tem o direito à felicidade.
Todo mundo tem o direito de começar.
Todo mundo tem o direito de desistir.
Todo mundo tem o direito de mudar.
Todo mundo tem o direito de recomeçar.
Todo mundo tem o direito à felicidade.

Vivam, por favor, bem e felizes!

Belo Horizonte, 8 de agosto de 2008.

domingo, 22 de junho de 2008

Promessa e Lei Escoteira - Um texto sobre tradução

Como já declarei inúmeras vezes, sou escoteiro há longa data. Na minha trajetória dentro do Movimento Escoteiro eu já fui Lobinho, Sênior, Pioneiro, Escotista assistente, Escotista responsável, membro de Comissão Fiscal Local, Presidente de Comissão Fiscal Local e colaborei na direção de um grupo. No total, são 20 anos de prática dentro e fora do movimento, sendo que em 14 deles eu estive diretamente ligado ao escotismo.

O tempo passou, e de um lobinho inocente me tornei um pensador, ocupado com leituras e discussões de filosofia, pedagogia, lingüística, literatura, teoria literária, teoria da tradução, antropologia, direito, sociologia e outras ciências e artes. Em suma, me tornei um consumidor de arte e de ciências humanas guiado por preceitos escoteiros, freirianos, kantianos e drummondianos. Isso tudo me fez conhecer uma porção do ser humano e de sua sociedade. Mas, principalmente, me fez conhecer a língua e a lógica de um ponto de vista privilegiado. Me fez um questionador do mundo. Um alfabetizado político cujo o maior inimigo é o "analfabeto político", o pior de todos os analfabetos. É, talvez, minha maior busca tentar explicar a importância de se fazer uma leitura de mundo mais detalhada, e não aceitar cegamente a leitura de outra pessoa.

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, dizia que ler é se alienar, é permitir que outros pensem por você. Paulo Freire, pedagogo brasileiro, falava da vocação ontológica do ser humano de ser mais. Até aqui, sou um alienado, pois reproduzo o que outros disseram, por mais conceituados que esses "outros" possam ser. Mas o que eu faço com isso e o que penso além do que li é o que me faz humano: é o meu pensar.

Como escoteiro aprendi com dois grandes escotistas do ramo sênior (eu ainda era sênior, e depois pioneiro) que é preciso olhar, ler e entender as situações como eu as enxergo, e não como o outro as enxergou. Nesse momento, o escotismo me ensinou a ser.

Parte do que aprendi com ele, eu retorno a ele, pensando-o, pensando a prática dele e a minha própria prática nele. Isso me levou a questionar muitas coisas com um "quem disse?", um "por que ele disse?", um "como ele disse?" e, principalmente, um "isso é certo?", e outro "será que isso ainda é válido?". E é sob essa ótica que eu analisarei nesse post a promessa e a lei escoteira como ela foi escrita por Baden-Powell, a tradução dela que usamos e irei além: sugerirei uma nova tradução.

A aqueles que deconhecem o início do escotismo, ele foi criado em 1907 por um militar inglês, o Baden-Powell. Seu objetivo era oferecer a jovens ociosos da Inglaterra atividades que pudessem auxiliar a educação deles e que poderia auxiliá-los a desenvolver o sentimento de cidadania. Pouco tempo depois do início do escotismo, Baden-Powell, que foi "militar por acaso" (como Laszlo Nagy escreveu em "250 Milhões de Escoteiros") desligou-se da vida militar e voltou-se completamente para a vida de educador.

Seu primeiro livro, "Escotismo para Rapazes", foi vendido em fascículos em bancas de jornais e foi um sucesso. Em pouco tempo o escotismo espalhou-se pelo mundo.

Como disse Rodrigo Robleño, escoteiro e artista, "Escotismo num é um lugar onde você aprende a viver melhor, é uma maneira de viver melhor, e oferecer o seu melhor para a vida, a sua e a dos outros, uma maneira de se sentir feliz sendo responsável pela construção de um mundo melhor, e se divertir fazendo isso." Apesar dessa descrição maravilhosa, o que Rodrigo não disse é que chegamos a isso através do aperfeiçoamento pessoal, e que seguimos um código moral e ético que nos leva a isso. A esse código chamamos de Promessa e Lei Escoteira.

E é exatamente sobre esse código que falarei hoje, pois questiono todos os tradicionalismos. O próprio escotismo me ensinou isso: não há como ser tradicionalista em um movimento de vanguarda, e é isso o que ele é desde sua criação: vanguarda educacional. Porém, como tudo o que suscinta paixão, alguns desviaram-se do caminho e fizerem dele uma segunda religião, e outros chegam ao cúmulo de acreditar que deve-se oferecer com um garoto brasileiro de hoje exatamente o que Baden-Powell oferecia a um garoto inglês de 1907.

Então, na busca de entender melhor o que Baden-Powell fez em sua época, verti-me em buscar o que ele mesmo escreveu em nosso código moral e ético. Encontrei-o facilmente na internet, em um site confiável: o do Bureau Mundial do Movimento Escoteiro:

The Scout Promise

On my honour I promise that I will do my best
To do my duty to God and the King (or to God and my Country);
To help other people at all times;
To obey the Scout Law.

The Scout Law

1. A Scout's honour is to be trusted.
2. A Scout is loyal.
3. A Scout's duty is to be useful and to help others.
4. A Scout is a friend to all and a brother to every other Scout.
5. A Scout is courteous.
6. A Scout is a friend to animals.
7. A Scout obeys orders of his parents, Patrol Leader or Scoutmaster without question.
8. A Scout smiles and whistles under all difficulties.
9. A Scout is thrifty.
10. A Scout is clean in thought, word and deed.
Fonte: http://www.scout.org/en/about_scouting/promise_and_law

Para os que não lêem em inglês, preparei um tradução no formato que um leigo chamaria de "literal", pois preocupei-me mais em verter palavras de uma língua a outra que em fazer uma interpretação das palavras e seu sentido dentro do contexto:

A Promessa Escoteira

Pela minha honra prometo que farei o meu melhor
Para cumprir o meu dever para com Deus e o Rei (ou para com Deus e meu país);
Ajudar o próximo em todos os momentos;
Obedecer a lei escoteira.

A Lei Escoteira

1. A honra de um escoteiro é ser confiável.
2. Um escoteiro é leal.
3. Um dever do escoteiro é ser útil e ajudar ao próximo.
4. Um escoteiro é amido de todos e irmão dos demais escoteiro.
5. Um escoteiro é cortês.
6. Um escoteiro é amigo dos animais..
7. Um escoteiro obedece ordens de seus pais, seu monitor ou do seu líder de tropa sem questionar.
8. Um escoteiro sorri e assobia sob todas as dificuldades.
9. Um escoteiro é econômico.
10. Um escoteiro é limpo de pensamento, palavra e ação.

Mas a tradução de um texto qualquer não deve ser feita pela versão de palavras e sintaxe de uma língua para outra. Não se traduz entre línguas. Traduz-se entre culturas. Não se verte palavras. Verte-se idéias. Nesse sentido, há muito tempo atrás, foi realizada uma tradução desse código e ela é utilizada até hoje pela UEB (União dos Escoteiros do Brasil):

Promessa Escoteira

Prometo pela minha honra fazer o melhor possível para:
cumprir meus deveres para com Deus e minha Pátria;
ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião;
e obedecer a Lei Escoteira.

Lei Escoteira

1. O Escoteiro tem uma só palavra; sua honra vale mais que sua própria vida.
2. O Escoteiro é leal.
3. O Escoteiro está sempre alerta para ajudar o próximo e pratica diariamente uma boa ação.
4. O Escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros.
5. O Escoteiro é cortês.
6. O Escoteiro é bom para ao animais e as plantas.
7. O Escoteiro é obediente e disciplinado.
8. O Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades.
9. O Escoteiro é econômico e respeita o bem alheio.
10. O Escoteiro é limpo de corpo e alma.
Fonte:http://www.escoteiros.org.br/Programa/valores/lei_e_promessa.htm

Talvez essa tradução fosse boa e perfeitamente funcional para a sua época. Mas pergunto: "ainda é válida para hoje?" "o que um jovem de 11 anos pensaria sobre essa lei?" "o que ela quer dizer em termos das palavras ali representadas hoje?" "e em respeitos aos significados possíveis de interpretação no início do terceiro milênio?"

Os artigos 2, 4 e 5 não são alvo de discórdia, pois expressam claramente o sentido que B.P. pretendia que tivessem em inglês, isso considerando diferentes possibilidades interpretativas. A questão é que são tradução quase "literais" do texto original e o contexto não permite outras interpretações. São bases do escotismo a cortesia, a fraternidade e a lealdade.

Quanto aos demais artigos, farei uma análise mais profunda dessa tradução.

"1. O Escoteiro tem uma só palavra; sua honra vale mais que sua própria vida."
B.P. escreveu que "A Scout's honour is to be trusted." Não importando como se possa traduzir em palavras, o sentido geral é o que o escoteiro é honrado e que essa honra pode-se resumir em ser confiável. Isso pode ser traduzido de algumas maneiras. É plausível, inclusive, traduzir como "O escoteiro tem uma só palavra", pois isso denota alguém que é confiável, alguém de quem se conhece a posição sobre os assuntos e sabe-se que não a mudará sem motivos claros, sejam eles lógicos ou sentimentais. Porém, quando lê-se a segunda parte da tradução desse artigo, "sua honra vale mais que sua própria vida", assume-se que esse padrão de confiabilidade deve ser mantido até quando a própria vida está em perigo. Isso é fanatismo. Em nenhum momento alguém deve ser julgado como ruim ou não-confiável por mentir para sobreviver. Deixo claro que em situações cotidianas, e mesmo situações de grande pressão, sou contra a falsidade e a mentira, mas existe um limiar onde a pressão torna-se uma questão de sobrevivência. Não a sobrevivência retórica do "deve-se sobreviver ao mundo mau", mas a da sobrevivência física do ser. O escotismo não deve formar fanáticos, mas cidadãos conscientes, e como tal, questionadores da própria realidade. Rejeito, sobretudo, a segunda oração dessa tradução.

"3. O Escoteiro está sempre alerta para ajudar o próximo e pratica diariamente uma boa ação."
A tradução desse artigo não está exatamente ruim. Apenas acho desnecessário marcar a todo momento o lema. Escotismo não é um lema, uma prática de vida. E essa prática, como qualquer outra, trás deveres, e não tenho nada contra deixar isso claro.

"6. O Escoteiro é bom para ao animais e as plantas."
Essa tradução de "6. A Scout is a friend to animals" é, na verdade, um avanço. Em sua época, ela deu um salto além e, mais do que se ater a animais, esse artigo em português foi mais e, dentro das idéias do escotismo, foi mais longe. É um ótimo exemplo de uma adaptação que altera de alguma forma o original e melhora-o dentro da idéia original. Isso, às vezes, acontece em traduções. Um exemplo é João Guimarães Rosa que, em carta ao tradutor alemão de "Grandes Sertões: Veredas" admitiu que considerava um certo trecho melhor na tradução que no original. Eu não manteria esse artigo desta maneira pois acredito que é o momento de dar um passo além, de englobar todas as coisas. Seja como crente e temente a Deus e amante de toda a criação, como um cidadão consciente de nosso papel com o planeta ou como ambos, um escoteiro é amigo não só das plantas e dos animais, mas de todos os seres, vivos ou não, que compõem o universo.

"7. O Escoteiro é obediente e disciplinado."
Disciplina é importante, mas não no sentido militar da palavra. Obediência também. Mas o artigo original estabelece pontualmente a quem um escoteiro é obediente. E se olharmos mais de perto, perceberemos que é de pessoas que por um motivo ou outro têm a sua confiança e seu respeito. Também são pessoas que, por serem pais ou amigos, querem muito bem a ele. É um artigo de tradução muito difícil, pois obediência cega não é característica de um bom cidadão, ou em outras palavras, de um bom escoteiro. Confesso que ainda não pensei como resolver a tradução desse artigo.

"8. O Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades."
É uma tradução interessante de "8. A Scout smiles and whistles under all difficulties." Ela trás um valor a mais, ou melhor, explicita um valor, o da alegria, o que é fundamental para a vida de qualquer um. Alegria pelo simples fato de viver e fazer seu melhor para superar as dificuldades é um ato escoteiro. Sorrir nas dificuldades não é sorrir de desespero, mas sorrir por saber que é possivel superar a adversidade e que a adversidade é um momento de aprendizado, que nos leva a ser mais.

"9. O Escoteiro é econômico e respeita o bem alheio."
É a tradução de "A Scout is thrifty". A palavra "thrifty" é um adjetivo no inglês que, segundo o dicionário Macmillan significa ser cauteloso sobre como se gasta o dinheiro de forma a não desperdiçar nada. Aí eu questiono: "respeita o bem alheio"? Algo como "não rouba" e "não comete vandalismo"? É necessário rever isso. Faz-se urgente, aliás. O não desperdício do capital é o não desmatamento, a não poluição, a não miséria. Das palavras possíveis em língua inglesa para esse sentido, B.P. escolheu exatamente a que une os dois sentidos de forma causal: "economizar para não desperdiçar".

"10. O Escoteiro é limpo de corpo e alma."
É interessante como a tradução realmente atende ao interesse de quem traduz. "limpo de corpo" é uma noção higienista da educação formal. Ela certamente não foi ruim, mas não cabe. Esse artigo refere-se à forma limpa de agir com todos, desde do nível do pensamento até a ação, sendo os três, pensamento, palavra e ação unas nesse artigo.

Finalizando, coloco a tradução à qual cheguei após muito pensar e estudar o tema, fugindo do que é apenas "literal" e pensando o que permitiria a lei escoteira orientar melhor aqueles que fazem parte dessa fraternidade. Eu traduzo os artigos da promessa escoteira da seguinte forma:

1 - O escoteiro é confiável.
2 - O escoteiro é leal.
3- O escoteiro é útil e ajuda o próximo sempre que pode.
4 - O escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros.
5 - O escoteiro é cortês.
6 - O escoteiro é bom para a natureza.
7 - *
8 - O escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades.
9 - O escoteiro é econômico e combate o desperdício.
10 - O escoteiro é limpo de pensamento, palavra e ação.
* Depois de muito pensar, eu acredito que esse artigo da lei deve ser excluído, pois não faz parte da prática de um bom cidadão, ou seja, de um bom escoteiro, no início do terceiro milênio da era cristã. Não existe espaço no mundo para obediência cega, mas há para o questionamento consciente da própria realidade.

Assim finalizo esse post. Espero que tenham gostado.

Abraços a todos,

Antônio Hezir
Comissão Fiscal
39/MG Grupo Escoteiro Santo Agostinho