domingo, 22 de junho de 2008

Promessa e Lei Escoteira - Um texto sobre tradução

Como já declarei inúmeras vezes, sou escoteiro há longa data. Na minha trajetória dentro do Movimento Escoteiro eu já fui Lobinho, Sênior, Pioneiro, Escotista assistente, Escotista responsável, membro de Comissão Fiscal Local, Presidente de Comissão Fiscal Local e colaborei na direção de um grupo. No total, são 20 anos de prática dentro e fora do movimento, sendo que em 14 deles eu estive diretamente ligado ao escotismo.

O tempo passou, e de um lobinho inocente me tornei um pensador, ocupado com leituras e discussões de filosofia, pedagogia, lingüística, literatura, teoria literária, teoria da tradução, antropologia, direito, sociologia e outras ciências e artes. Em suma, me tornei um consumidor de arte e de ciências humanas guiado por preceitos escoteiros, freirianos, kantianos e drummondianos. Isso tudo me fez conhecer uma porção do ser humano e de sua sociedade. Mas, principalmente, me fez conhecer a língua e a lógica de um ponto de vista privilegiado. Me fez um questionador do mundo. Um alfabetizado político cujo o maior inimigo é o "analfabeto político", o pior de todos os analfabetos. É, talvez, minha maior busca tentar explicar a importância de se fazer uma leitura de mundo mais detalhada, e não aceitar cegamente a leitura de outra pessoa.

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, dizia que ler é se alienar, é permitir que outros pensem por você. Paulo Freire, pedagogo brasileiro, falava da vocação ontológica do ser humano de ser mais. Até aqui, sou um alienado, pois reproduzo o que outros disseram, por mais conceituados que esses "outros" possam ser. Mas o que eu faço com isso e o que penso além do que li é o que me faz humano: é o meu pensar.

Como escoteiro aprendi com dois grandes escotistas do ramo sênior (eu ainda era sênior, e depois pioneiro) que é preciso olhar, ler e entender as situações como eu as enxergo, e não como o outro as enxergou. Nesse momento, o escotismo me ensinou a ser.

Parte do que aprendi com ele, eu retorno a ele, pensando-o, pensando a prática dele e a minha própria prática nele. Isso me levou a questionar muitas coisas com um "quem disse?", um "por que ele disse?", um "como ele disse?" e, principalmente, um "isso é certo?", e outro "será que isso ainda é válido?". E é sob essa ótica que eu analisarei nesse post a promessa e a lei escoteira como ela foi escrita por Baden-Powell, a tradução dela que usamos e irei além: sugerirei uma nova tradução.

A aqueles que deconhecem o início do escotismo, ele foi criado em 1907 por um militar inglês, o Baden-Powell. Seu objetivo era oferecer a jovens ociosos da Inglaterra atividades que pudessem auxiliar a educação deles e que poderia auxiliá-los a desenvolver o sentimento de cidadania. Pouco tempo depois do início do escotismo, Baden-Powell, que foi "militar por acaso" (como Laszlo Nagy escreveu em "250 Milhões de Escoteiros") desligou-se da vida militar e voltou-se completamente para a vida de educador.

Seu primeiro livro, "Escotismo para Rapazes", foi vendido em fascículos em bancas de jornais e foi um sucesso. Em pouco tempo o escotismo espalhou-se pelo mundo.

Como disse Rodrigo Robleño, escoteiro e artista, "Escotismo num é um lugar onde você aprende a viver melhor, é uma maneira de viver melhor, e oferecer o seu melhor para a vida, a sua e a dos outros, uma maneira de se sentir feliz sendo responsável pela construção de um mundo melhor, e se divertir fazendo isso." Apesar dessa descrição maravilhosa, o que Rodrigo não disse é que chegamos a isso através do aperfeiçoamento pessoal, e que seguimos um código moral e ético que nos leva a isso. A esse código chamamos de Promessa e Lei Escoteira.

E é exatamente sobre esse código que falarei hoje, pois questiono todos os tradicionalismos. O próprio escotismo me ensinou isso: não há como ser tradicionalista em um movimento de vanguarda, e é isso o que ele é desde sua criação: vanguarda educacional. Porém, como tudo o que suscinta paixão, alguns desviaram-se do caminho e fizerem dele uma segunda religião, e outros chegam ao cúmulo de acreditar que deve-se oferecer com um garoto brasileiro de hoje exatamente o que Baden-Powell oferecia a um garoto inglês de 1907.

Então, na busca de entender melhor o que Baden-Powell fez em sua época, verti-me em buscar o que ele mesmo escreveu em nosso código moral e ético. Encontrei-o facilmente na internet, em um site confiável: o do Bureau Mundial do Movimento Escoteiro:

The Scout Promise

On my honour I promise that I will do my best
To do my duty to God and the King (or to God and my Country);
To help other people at all times;
To obey the Scout Law.

The Scout Law

1. A Scout's honour is to be trusted.
2. A Scout is loyal.
3. A Scout's duty is to be useful and to help others.
4. A Scout is a friend to all and a brother to every other Scout.
5. A Scout is courteous.
6. A Scout is a friend to animals.
7. A Scout obeys orders of his parents, Patrol Leader or Scoutmaster without question.
8. A Scout smiles and whistles under all difficulties.
9. A Scout is thrifty.
10. A Scout is clean in thought, word and deed.
Fonte: http://www.scout.org/en/about_scouting/promise_and_law

Para os que não lêem em inglês, preparei um tradução no formato que um leigo chamaria de "literal", pois preocupei-me mais em verter palavras de uma língua a outra que em fazer uma interpretação das palavras e seu sentido dentro do contexto:

A Promessa Escoteira

Pela minha honra prometo que farei o meu melhor
Para cumprir o meu dever para com Deus e o Rei (ou para com Deus e meu país);
Ajudar o próximo em todos os momentos;
Obedecer a lei escoteira.

A Lei Escoteira

1. A honra de um escoteiro é ser confiável.
2. Um escoteiro é leal.
3. Um dever do escoteiro é ser útil e ajudar ao próximo.
4. Um escoteiro é amido de todos e irmão dos demais escoteiro.
5. Um escoteiro é cortês.
6. Um escoteiro é amigo dos animais..
7. Um escoteiro obedece ordens de seus pais, seu monitor ou do seu líder de tropa sem questionar.
8. Um escoteiro sorri e assobia sob todas as dificuldades.
9. Um escoteiro é econômico.
10. Um escoteiro é limpo de pensamento, palavra e ação.

Mas a tradução de um texto qualquer não deve ser feita pela versão de palavras e sintaxe de uma língua para outra. Não se traduz entre línguas. Traduz-se entre culturas. Não se verte palavras. Verte-se idéias. Nesse sentido, há muito tempo atrás, foi realizada uma tradução desse código e ela é utilizada até hoje pela UEB (União dos Escoteiros do Brasil):

Promessa Escoteira

Prometo pela minha honra fazer o melhor possível para:
cumprir meus deveres para com Deus e minha Pátria;
ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião;
e obedecer a Lei Escoteira.

Lei Escoteira

1. O Escoteiro tem uma só palavra; sua honra vale mais que sua própria vida.
2. O Escoteiro é leal.
3. O Escoteiro está sempre alerta para ajudar o próximo e pratica diariamente uma boa ação.
4. O Escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros.
5. O Escoteiro é cortês.
6. O Escoteiro é bom para ao animais e as plantas.
7. O Escoteiro é obediente e disciplinado.
8. O Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades.
9. O Escoteiro é econômico e respeita o bem alheio.
10. O Escoteiro é limpo de corpo e alma.
Fonte:http://www.escoteiros.org.br/Programa/valores/lei_e_promessa.htm

Talvez essa tradução fosse boa e perfeitamente funcional para a sua época. Mas pergunto: "ainda é válida para hoje?" "o que um jovem de 11 anos pensaria sobre essa lei?" "o que ela quer dizer em termos das palavras ali representadas hoje?" "e em respeitos aos significados possíveis de interpretação no início do terceiro milênio?"

Os artigos 2, 4 e 5 não são alvo de discórdia, pois expressam claramente o sentido que B.P. pretendia que tivessem em inglês, isso considerando diferentes possibilidades interpretativas. A questão é que são tradução quase "literais" do texto original e o contexto não permite outras interpretações. São bases do escotismo a cortesia, a fraternidade e a lealdade.

Quanto aos demais artigos, farei uma análise mais profunda dessa tradução.

"1. O Escoteiro tem uma só palavra; sua honra vale mais que sua própria vida."
B.P. escreveu que "A Scout's honour is to be trusted." Não importando como se possa traduzir em palavras, o sentido geral é o que o escoteiro é honrado e que essa honra pode-se resumir em ser confiável. Isso pode ser traduzido de algumas maneiras. É plausível, inclusive, traduzir como "O escoteiro tem uma só palavra", pois isso denota alguém que é confiável, alguém de quem se conhece a posição sobre os assuntos e sabe-se que não a mudará sem motivos claros, sejam eles lógicos ou sentimentais. Porém, quando lê-se a segunda parte da tradução desse artigo, "sua honra vale mais que sua própria vida", assume-se que esse padrão de confiabilidade deve ser mantido até quando a própria vida está em perigo. Isso é fanatismo. Em nenhum momento alguém deve ser julgado como ruim ou não-confiável por mentir para sobreviver. Deixo claro que em situações cotidianas, e mesmo situações de grande pressão, sou contra a falsidade e a mentira, mas existe um limiar onde a pressão torna-se uma questão de sobrevivência. Não a sobrevivência retórica do "deve-se sobreviver ao mundo mau", mas a da sobrevivência física do ser. O escotismo não deve formar fanáticos, mas cidadãos conscientes, e como tal, questionadores da própria realidade. Rejeito, sobretudo, a segunda oração dessa tradução.

"3. O Escoteiro está sempre alerta para ajudar o próximo e pratica diariamente uma boa ação."
A tradução desse artigo não está exatamente ruim. Apenas acho desnecessário marcar a todo momento o lema. Escotismo não é um lema, uma prática de vida. E essa prática, como qualquer outra, trás deveres, e não tenho nada contra deixar isso claro.

"6. O Escoteiro é bom para ao animais e as plantas."
Essa tradução de "6. A Scout is a friend to animals" é, na verdade, um avanço. Em sua época, ela deu um salto além e, mais do que se ater a animais, esse artigo em português foi mais e, dentro das idéias do escotismo, foi mais longe. É um ótimo exemplo de uma adaptação que altera de alguma forma o original e melhora-o dentro da idéia original. Isso, às vezes, acontece em traduções. Um exemplo é João Guimarães Rosa que, em carta ao tradutor alemão de "Grandes Sertões: Veredas" admitiu que considerava um certo trecho melhor na tradução que no original. Eu não manteria esse artigo desta maneira pois acredito que é o momento de dar um passo além, de englobar todas as coisas. Seja como crente e temente a Deus e amante de toda a criação, como um cidadão consciente de nosso papel com o planeta ou como ambos, um escoteiro é amigo não só das plantas e dos animais, mas de todos os seres, vivos ou não, que compõem o universo.

"7. O Escoteiro é obediente e disciplinado."
Disciplina é importante, mas não no sentido militar da palavra. Obediência também. Mas o artigo original estabelece pontualmente a quem um escoteiro é obediente. E se olharmos mais de perto, perceberemos que é de pessoas que por um motivo ou outro têm a sua confiança e seu respeito. Também são pessoas que, por serem pais ou amigos, querem muito bem a ele. É um artigo de tradução muito difícil, pois obediência cega não é característica de um bom cidadão, ou em outras palavras, de um bom escoteiro. Confesso que ainda não pensei como resolver a tradução desse artigo.

"8. O Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades."
É uma tradução interessante de "8. A Scout smiles and whistles under all difficulties." Ela trás um valor a mais, ou melhor, explicita um valor, o da alegria, o que é fundamental para a vida de qualquer um. Alegria pelo simples fato de viver e fazer seu melhor para superar as dificuldades é um ato escoteiro. Sorrir nas dificuldades não é sorrir de desespero, mas sorrir por saber que é possivel superar a adversidade e que a adversidade é um momento de aprendizado, que nos leva a ser mais.

"9. O Escoteiro é econômico e respeita o bem alheio."
É a tradução de "A Scout is thrifty". A palavra "thrifty" é um adjetivo no inglês que, segundo o dicionário Macmillan significa ser cauteloso sobre como se gasta o dinheiro de forma a não desperdiçar nada. Aí eu questiono: "respeita o bem alheio"? Algo como "não rouba" e "não comete vandalismo"? É necessário rever isso. Faz-se urgente, aliás. O não desperdício do capital é o não desmatamento, a não poluição, a não miséria. Das palavras possíveis em língua inglesa para esse sentido, B.P. escolheu exatamente a que une os dois sentidos de forma causal: "economizar para não desperdiçar".

"10. O Escoteiro é limpo de corpo e alma."
É interessante como a tradução realmente atende ao interesse de quem traduz. "limpo de corpo" é uma noção higienista da educação formal. Ela certamente não foi ruim, mas não cabe. Esse artigo refere-se à forma limpa de agir com todos, desde do nível do pensamento até a ação, sendo os três, pensamento, palavra e ação unas nesse artigo.

Finalizando, coloco a tradução à qual cheguei após muito pensar e estudar o tema, fugindo do que é apenas "literal" e pensando o que permitiria a lei escoteira orientar melhor aqueles que fazem parte dessa fraternidade. Eu traduzo os artigos da promessa escoteira da seguinte forma:

1 - O escoteiro é confiável.
2 - O escoteiro é leal.
3- O escoteiro é útil e ajuda o próximo sempre que pode.
4 - O escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros.
5 - O escoteiro é cortês.
6 - O escoteiro é bom para a natureza.
7 - *
8 - O escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades.
9 - O escoteiro é econômico e combate o desperdício.
10 - O escoteiro é limpo de pensamento, palavra e ação.
* Depois de muito pensar, eu acredito que esse artigo da lei deve ser excluído, pois não faz parte da prática de um bom cidadão, ou seja, de um bom escoteiro, no início do terceiro milênio da era cristã. Não existe espaço no mundo para obediência cega, mas há para o questionamento consciente da própria realidade.

Assim finalizo esse post. Espero que tenham gostado.

Abraços a todos,

Antônio Hezir
Comissão Fiscal
39/MG Grupo Escoteiro Santo Agostinho
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