quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Sobre sistema e rebeldia

Nos meios que frequênto, muito se fala sobre sistema e sobre rebeldia contra esses sistema. Bem, de certa forma eu sempre fui um rebelde por não concordar com o sistema. Por outro lado, só recentemente eu entendi muitas das minhas atitudes e percebo que, só agora, eu tenho alguma condição de me rebelar de verdade.

O sistema não é seu discurso, mas sua prática. E não se enganem! Não existe um grupo de pessoas super-poderosas que manda em tudo. Nós somos partes integrantes dele. E mesmo que as pessoas poderosas em qualquer sistema tenham uma grande capacidade de interferência, eles dependem, no mínimo, da nossa conivência, no máximo, do nosso apoio declarado. Li uma vez, não lembro o autor, que "a elite de um país é seu povo". Mais do que nunca eu acredito nisso. Seja num sistema ditatorial ou democrático, quem está nos cargos de governança conta com a conivência da população que os apoia diretamente através de protestos favoráveis, seja indiretamente através do silêncio. Todos são responsáveis.

Assim também é "mercado". Ora! Não existe um ente ontológico senciente chamado "mercado". Ele não decide nada. Quem decide somos nós, homo "sapiens", que aderimos e propagamos esse sistema e, assim, abrimos mão de coisas que nos são caras para "gerar riqueza", sem nos questionarmos o que é riqueza, a quem interessa isso e pra onde ela vai.

Entendam: não sou contra os confortos da vida contemporânea. Ao contrário. Esse texto está sendo escrito em um notebook de design arrojado (como definido por um amigo), na mesa de um aeroporto esperando uma amiga gaúcha chegar.

O que é preciso prestar atenção é que esse tal sistema ele determina um monte de coisas, inclusive a forma de se rebelar contra ele.

Quando eu tinha meus 15 anos, eu matava aula para beber no bar em frente ao CEFET-MG. E achava que estava arrasando. E meu colegas também achavam isso. Ao menos a maioria. Que eu era O rebelde foda. Aham. Hoje eu vejo que eu nada fazia o que esse tal sistema não desejasse. Vejam bem: o professor era mal treinado (felizmente não todos) e desestimulado (mais uma vez, felizmente não todos); o equipamento era ruim (e olha que o do CEFET-MG era um dos melhores) e os livros didáticos bitolantes, massacrantes. Nada mais justo que eu matasse aula para consumir minha droga preferida (o álcool). Mas a quem isso atendia? A mim? Hoje creio que não, apesar de na época eu ter sido "o famoso", hoje eu acho que eu era "o babaca".

Então eu percebi, não naquela época, mas depois, que o que tem que ser combatido não é "o sistema", mas facetas deles. Isso significa não escolher um inimigo invisível e incombatível, mas melhorar a própria prática de vida para ajustá-la ao meu próprio discurso. Algo completamente plausível. E, então, percebi-me um rebelde, pela primeira vez, consciente.

Talvez isso tenha sido durante a gestão Desconstruindo Babel, do DA-Letras da UFMG, da qual tive o privilégio de participar. Junto com pessoas maravilhosas, rompemos com uma prática de movimento estudantil cuja tônica era utilizar o espaço do DA para consumir drogas ilícitas, o que afastava vários acadêmicos do DA e contruímos um espaço de convivência e aceitação com pessoas de idéias diferente e cursos diferentes. Éramos frequentados por pessoss de várias faculdades da UFMG (como o Instituto de Geociências, o Instituto de Ciencias Exatas, a Escola de Belas Artes, a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e a Biblioteconomia), visitados constantemente por funcionários da Faculdade de Letras e ocasionalmente pela própria diretora da faculdade. Trabalhamos em prol do curso, realizando várias pequenas conquistas que, muitas vezes invisíveis, melhoravam a vida dos alunos e potencializavam seu aprendizado. Demos total liberdade à comissão editorial do Estilingue, nosso jornal, cujas únicas orientações nossas eram não ter textos político-partidários e manter um nível alto de qualidade, orientações pró-forma, pois a referida comissão editorial já tinha essa intenção e executou seu trabalho à maestria. Ajudamos a financiar viagens de alunos da Letras para congressos, remobiliamos o DA e colocamos à disposição de qualquer aluno o computador para a elaboração e impressão de trabalho. Isso tudo com dinheiro público, ou seja, retornamos ao aluno o dinheiro que já era dele. Fomos a primeira gestão que, em anos, fez uma prestação de contas com o mínimo de qualidade técnica, tanto contábil quanto de realizações e entregamos o DA à próxima gestão com todos os documento e atas devidamente registrados. Durante esse ano, eu fui um rebelde. Me rebelei contra a forma pré-definida de se rebelar.

No dia em que me torno mais próximo dos 30 anos do que dos 29, eu posso falar, enfim, sobre o que é rebeldia. Rebeldia é o ato de tomar a própria vida nas mãos, de vivê-la de acordo com o que se acredita ser bom, sem seguir cegamente qualquer doutrina, sem se isolar das pessoas e sem comprar um sistema que interessa apenas a uns poucos. Rebelar-se não é cometar atos ilícitos por eles serem ilícitos, ou encher a cabeça de drogas "porque eu posso", mas é saber porque se faz cada coisa. É ter consciência de seu ser completo e viver bem com isso.

Por isso, meus amigos, vivam bem e felizes! E tenham certeza de que esse é o maior ato de rebeldia num mundo que faz tudo pra te ver mal.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

"ADO-ADO-ADO: Cada um no seu quadrado!"

Recentemente muita coisa boa e ruim me aconteceu. Entre elas, eu gostaria de comentar sobre uma pessoa. Sem nomes nem nada. Algumas pessoas saberão quem é, outras não. E expô-la cruelmente ao mundo não é meu objetivo.

Conheci a pessoa há pouco mais de um mês, não perfazendo dois ainda. Ela apareceu na minha vida do nada e me ajudou a crescer muito. Decidimos ter um relacionamento, o qual ela achou ser melhor para ela não manter. Fiz o que me coube: entender e aceitar. De certa forma, esse texto é pra ela.

Ela tem repetido muito a frase título desse post, na tentativa de encontrar seu próprio quadrado. Pensando muito nisso, eu desenvolvi a "Teoria Sociológica dos Quadrados".

Existe um sistema. Ele diz coisas, e faz outras. A base da vida não é o que se diz, mas o que se faz. Eu, por exemplo, aprendi a não confiar em palavras, mas em ações. E é por elas, as ações de cada pessoa, que eu escolho de quem eu permaneço próximo ou não.

A sociedade é um sistema de interesses. E a minha pergunta é: a quem interessa que cada um esteja sozinho em seu quadrado? Pensando mais a fundo: a quem interessa que existam tais quadrados? E pensando mais estética-geometricamente: a quem interessa que sejam quadrados?

A minha "Teoria Sociológica dos Quadrados" diz que cada pessoa tem seu próprio pequeno quadrado, no qual pensa que manda como um rei em seu castelo. Mas diz também que esses estão muito próximos, e que aproximamos nossos quadrados dos quadrados de quem estamos perto, fazendo assim, novos quadrados maiores que são compostos por e contém quadrados menores, os individuais. Os pequenos grupos assim formados, como uma familia, no qual o homem e a mulher (ou o homem e o homem, ou a mulher e a mulher) uniram seus quadrados formando um maior, mas fazendo questão de manter suas próprias barreiras em seus próprios quadrados, se unem a outros, como por exemplo, um casal de vizinhos. E assim mais um quadrado é formado por outros dois, que por sua vez são formados por outros dois. Então cada pessoa tem seu quadrado, e une esse quadrado aos quadrados de outras pessoas, como num condomínio, que, por sua vez, une o quadrado condomínio aos quadrados dos demais condomínios formando o quadrado rua, que se une aos quadrados das outras ruas formando o quadrado cidade, que se une aos outros quadrados cidades formando o quadrado estado, o qual se une aos outros quadrados estado formando o quadrado país, o qual se une a outros quadrados países formando o quadrado mundo. Não irei além, pois prefiro não especular sobre a existência ou não de ETs, gnomos, anjos ou deuses.

No fundo, isso não passa de uma babaquice de um sistema que prega uma pseudo-independência a seres de uma espécie que é naturalmente social e dependente. Não nos associamos uns aos outros porque os achamos bonitinhos, mas porque o grupo oferece conforto e segurança. Nos associamos a nossos iguais: aqueles que vêm da mesma região, que têm um código ético semelhante, que têm práticas de vida semelhantes. Isso é natural. Diante disso, o discurso da independência não pode em hipótese nenhuma atender ao ser humano de qualquer lugar, classe sócio-econômica, etnia, opção ética ect.

Isolar-se em seu quadrado é isolar-se do mundo. Recusar visitar o quadrado do outro e recusar que o outro visite o seu é recusar sua própria condição de ser humano em nome de comprar um discurso que não atende às suas necessidades básicas. O ser humano é basicamente colaborativo.

Nos primórdios de nossa espécie colaboramos em nosso grupo para conseguir comida, encontrar abrigo, defender-nos de outras espécies e manter o fogo aceso. Num segundo momento, competimos contra outros grupos de nossa própria espécie ancestral. Porém, sempre mostrou-se mais vantajoso a colaboração que a competição. "ADO-ADO-ADO: Cada um no seu quadrado!" é o típico tema da competição.

Delimita-se o espaço próprio, impedindo que o outro aproxime-se e afasta-se qualquer um que desafie as fronteiras do quadrado. Quadrado que, aliás, é uma forma geométrica agressiva, com pontas e extremamente massificante, pois todos podem ser definidos como lxl. Se há de ter formas, que sejam círculos. Ou melhor, que não tenham formas, que não se prenda, que sejam amorfos e mutantes. E mais, que hajam interseções. E que essas interseções sejam prioritárias, pois é na relação fenomenológica que se define quem se é e qual sua função aqui. E que de amorfo intersecionado ele torne-se imperceptível, e que o imperceptível torne-se nada, pois é isso que é: uma invenção bizarra que não interessa ao fazer humano.

"Um outro mundo é possível." Um mundo sem quadrados. Um mundo sem círculos ou espaços próprios mesmo que amorfos. Um mundo de interseções vivas e atuantes. Um mundo onde o eu e o outro convivem (ou vivem com) e conversam (ou versam com), sem monólogos, mas cheios de diálogos, sem tolerância, mas com aceitação.

Ninguém está sozinho. O mundo é de todos e o desafio e o prazer da vida é aceitar ser feliz e que o outro seja feliz vivendo lado-a-lado.

"ADO-ADO-ADO: Cada um no seu quadrado!" é o caralho!

Belo Horizonte, 8 de outubro de 2008.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Sobre a efemeridade da vida e modos sustentáveis de vida

A vida é efêmera. E frágil.

Já a algum tempo ela tem me estapeado com isso. Só nesse ano vi um amigo perder o tio e o pai. Ambos jovens (menos de 60 anos). Isso, e a doença de meu pai, que em menos de 1 mês foi internado três vezes, me fez, e me faz, pensar muito sobre o meu tempo aqui. Tolkien disse na voz de Gandalf que não nos cabe saber quanto tempo teremos nesse mundo, mas o que fazer com o tempo que nos é dado.

E essa é a minha questão. O que estamos fazendo com nosso tempo? O que eu faço com o meu? Isso atende às minhas necessidades? Das mais íntimas e específicas às mais sociais e vulgares? Aonde as escolhas que eu faço hoje me levarão amanhã? As coisas que dou importância hoje e que tomam a maior parte do meu tempo são as mais importantes para mim?

Observando meus amigos eu percebi que pessoas maravilhosas e que eram bem equilibradas passaram, num prazo curto, a serem medicadas por causa de distúrbios psiquiátricos, sendo o campeão de diagnósticos o Distúrbio Bipolar. Por serem muitos conhecidos, e alguns amigos, eu descartei a possibilidade de toda uma gama de médicos estarem errados. Alguns podem estar, mas todos? Claro que não é impossível que haja alguma cultura recente entre esses especialistas da medicina que todos os seres humanos precisem de psicotrópicos. Mas entre o surto coletivo de Alienistas de Machado de Assis e a razão da probabilidade, decidi ter fé na segunda.

Eliminado, então, o erro médico em massa da equação, restou-me olhar para os meus conhecidos e observá-los. Percebi que suas vidas estavam indo pro buraco, exatamente como a vaca vai para o brejo. Eles estavam extremamente pressionados na universidade e/ou no trabalho, com problemas familiares e amorosos. Mas esses mesmos problemas se amenizavam nos fins de semana sendo que a única mudança é que não havia trabalho ou universidade.

Comecei, então a observar a rotina durante a semana dessas pessoas. Era sempre corrida. Dormindo menos de oito horas por dia, sem tempo de se alimentarem direito, sem diversão, sem momentos de intimidade com outras pessoas e com ela mesma. Era uma doação ao sistema de forma que não vale a pena. Não vale porque não vale mesmo! Eram escolhas feitas por elas que não as atendiam.

Quando se fala sobre modo de vida sustentável, fala-se sobre como prezervar o meio-ambiente, produzindo menos lixo e priorizando culturas sem agrotóxicos, as culturas orgâncias. Fala-se de academias: malhar é a moda do momento há uns 10 anos. Mas muito pouco fala-se sobre o que importa.

Quando eu penso sobre modo de vida sustentável, eu penso em um modo de vida que me permita viver até meus 90 anos (não sei porque, mas acredito que morrerei com 88) de forma saudável, envelhecendo bem e feliz, lúcido e indo com minha esposa a bailes da terceira idade até o meu último dia. É claro que uma dieta saudável e exercícios físicos fazem parte disso, bem como a sustentabilidade do meio-ambiente, pois quero que daqui 60 anos haja um mundo para que eu viva e o curta. Mas o que eu percebo que vai me dar isso mesmo é minha mudança de foco para a sustentabilidade do meu próprio corpo e da minha psiquê. É insistentável trabalhar 10 horas TODOS os dias. É insustentável deixar de ver quem eu gosto ou desmarcar um compromisso pessoal em virtude de um compromisso de trabalho pra atender a um chefe ou um cliente desorganizado. É insustentável me frustrar afetiva ou amorosamente em nome de uma empresa que nem minha é, para gerar riqueza para outro. E se fosse minha, é insustentável à minha visão de ser humano dar mais valor àquilo que não passa de vidro e metal do na vida é prazer e bem-viver.

Modo de vida sustentável para mim é frear a loucura da vida contemporânea. É parar todo dia por uns 20 minutos para fazer nada, ou melhor, para meditar. É praticar o ócio crativo. É Comer com calma e com o celular desligado. É sorrir e falar bom dia, mesmo que o meu dia não esteja bom. É não tentar ser Atlas e me permitir ser forte o suficiente para chorar no colo dos amigos quando for necessário. E não ser babaca de não oferecer meu colo quando meus amigos precisam. É ao telefonema de um amigo se colocar à disposição de matar a prova pra ir conversar com ele pelo simples motivo de que ele precisa (a agradecê-lo por dizer que você deve fazer a prova e, então, ir). Sustentabilidade é sair de casa às 11 da noite pra ir pra casa de um amigo cujo pai falesceu, sem se preocupar como estará para trabalhar no outro dia. Sustentabilidade é aceitar todos os seres indiscriminadamente e combater todo e qualquer tipo de preconceito e discriminação. Sustentabilidade é viver a plenitude da vida, aceitando seu trabalho como forma de interferência política no mundo, usando-o para melhorar efetivamente a sua vida e a de outras pessoas, mas sem se anular enquanto ser humano. Sustentabilidade é dizer ao seu trabalho e ao seu estudo que você é mais que um robô senciente ou um número de matrícula.

Sustentabilidade é, enfim, uma maneira de viver bem e feliz, consigo mesmo e com os outros, aliando sua prática ao seu discurso, sem atrapalhar aos outros e, sempre que possível ajudando-os, protegendo sua casa de si mesmo, ou seja, seu planeta de seus próprios abusos, percebendo em cada ser vivo um igual, com direito à vida e à dignidade, mantendo suas duas únicas posses verdadeiras, seu corpo e sua palavra, em bom estado e confiáveis, convivendo com pessoas e fazendo parte de grupos cujos você apóie e que também te apóiem.

Então, amigos, é isso. Olhem para a própria vida e observem se, na prática, vocês estão priorizando o que lhes é realmente importante, tanto no tempo quanto no esforço demandado. E se não estiverem, tenham certeza de alguns direitos seus:

Todo mundo tem o direito à felicidade.
Todo mundo tem o direito de começar.
Todo mundo tem o direito de desistir.
Todo mundo tem o direito de mudar.
Todo mundo tem o direito de recomeçar.
Todo mundo tem o direito à felicidade.

Vivam, por favor, bem e felizes!

Belo Horizonte, 8 de agosto de 2008.