quarta-feira, 15 de outubro de 2008

"ADO-ADO-ADO: Cada um no seu quadrado!"

Recentemente muita coisa boa e ruim me aconteceu. Entre elas, eu gostaria de comentar sobre uma pessoa. Sem nomes nem nada. Algumas pessoas saberão quem é, outras não. E expô-la cruelmente ao mundo não é meu objetivo.

Conheci a pessoa há pouco mais de um mês, não perfazendo dois ainda. Ela apareceu na minha vida do nada e me ajudou a crescer muito. Decidimos ter um relacionamento, o qual ela achou ser melhor para ela não manter. Fiz o que me coube: entender e aceitar. De certa forma, esse texto é pra ela.

Ela tem repetido muito a frase título desse post, na tentativa de encontrar seu próprio quadrado. Pensando muito nisso, eu desenvolvi a "Teoria Sociológica dos Quadrados".

Existe um sistema. Ele diz coisas, e faz outras. A base da vida não é o que se diz, mas o que se faz. Eu, por exemplo, aprendi a não confiar em palavras, mas em ações. E é por elas, as ações de cada pessoa, que eu escolho de quem eu permaneço próximo ou não.

A sociedade é um sistema de interesses. E a minha pergunta é: a quem interessa que cada um esteja sozinho em seu quadrado? Pensando mais a fundo: a quem interessa que existam tais quadrados? E pensando mais estética-geometricamente: a quem interessa que sejam quadrados?

A minha "Teoria Sociológica dos Quadrados" diz que cada pessoa tem seu próprio pequeno quadrado, no qual pensa que manda como um rei em seu castelo. Mas diz também que esses estão muito próximos, e que aproximamos nossos quadrados dos quadrados de quem estamos perto, fazendo assim, novos quadrados maiores que são compostos por e contém quadrados menores, os individuais. Os pequenos grupos assim formados, como uma familia, no qual o homem e a mulher (ou o homem e o homem, ou a mulher e a mulher) uniram seus quadrados formando um maior, mas fazendo questão de manter suas próprias barreiras em seus próprios quadrados, se unem a outros, como por exemplo, um casal de vizinhos. E assim mais um quadrado é formado por outros dois, que por sua vez são formados por outros dois. Então cada pessoa tem seu quadrado, e une esse quadrado aos quadrados de outras pessoas, como num condomínio, que, por sua vez, une o quadrado condomínio aos quadrados dos demais condomínios formando o quadrado rua, que se une aos quadrados das outras ruas formando o quadrado cidade, que se une aos outros quadrados cidades formando o quadrado estado, o qual se une aos outros quadrados estado formando o quadrado país, o qual se une a outros quadrados países formando o quadrado mundo. Não irei além, pois prefiro não especular sobre a existência ou não de ETs, gnomos, anjos ou deuses.

No fundo, isso não passa de uma babaquice de um sistema que prega uma pseudo-independência a seres de uma espécie que é naturalmente social e dependente. Não nos associamos uns aos outros porque os achamos bonitinhos, mas porque o grupo oferece conforto e segurança. Nos associamos a nossos iguais: aqueles que vêm da mesma região, que têm um código ético semelhante, que têm práticas de vida semelhantes. Isso é natural. Diante disso, o discurso da independência não pode em hipótese nenhuma atender ao ser humano de qualquer lugar, classe sócio-econômica, etnia, opção ética ect.

Isolar-se em seu quadrado é isolar-se do mundo. Recusar visitar o quadrado do outro e recusar que o outro visite o seu é recusar sua própria condição de ser humano em nome de comprar um discurso que não atende às suas necessidades básicas. O ser humano é basicamente colaborativo.

Nos primórdios de nossa espécie colaboramos em nosso grupo para conseguir comida, encontrar abrigo, defender-nos de outras espécies e manter o fogo aceso. Num segundo momento, competimos contra outros grupos de nossa própria espécie ancestral. Porém, sempre mostrou-se mais vantajoso a colaboração que a competição. "ADO-ADO-ADO: Cada um no seu quadrado!" é o típico tema da competição.

Delimita-se o espaço próprio, impedindo que o outro aproxime-se e afasta-se qualquer um que desafie as fronteiras do quadrado. Quadrado que, aliás, é uma forma geométrica agressiva, com pontas e extremamente massificante, pois todos podem ser definidos como lxl. Se há de ter formas, que sejam círculos. Ou melhor, que não tenham formas, que não se prenda, que sejam amorfos e mutantes. E mais, que hajam interseções. E que essas interseções sejam prioritárias, pois é na relação fenomenológica que se define quem se é e qual sua função aqui. E que de amorfo intersecionado ele torne-se imperceptível, e que o imperceptível torne-se nada, pois é isso que é: uma invenção bizarra que não interessa ao fazer humano.

"Um outro mundo é possível." Um mundo sem quadrados. Um mundo sem círculos ou espaços próprios mesmo que amorfos. Um mundo de interseções vivas e atuantes. Um mundo onde o eu e o outro convivem (ou vivem com) e conversam (ou versam com), sem monólogos, mas cheios de diálogos, sem tolerância, mas com aceitação.

Ninguém está sozinho. O mundo é de todos e o desafio e o prazer da vida é aceitar ser feliz e que o outro seja feliz vivendo lado-a-lado.

"ADO-ADO-ADO: Cada um no seu quadrado!" é o caralho!

Belo Horizonte, 8 de outubro de 2008.
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