quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Sobre a efemeridade da vida e modos sustentáveis de vida

A vida é efêmera. E frágil.

Já a algum tempo ela tem me estapeado com isso. Só nesse ano vi um amigo perder o tio e o pai. Ambos jovens (menos de 60 anos). Isso, e a doença de meu pai, que em menos de 1 mês foi internado três vezes, me fez, e me faz, pensar muito sobre o meu tempo aqui. Tolkien disse na voz de Gandalf que não nos cabe saber quanto tempo teremos nesse mundo, mas o que fazer com o tempo que nos é dado.

E essa é a minha questão. O que estamos fazendo com nosso tempo? O que eu faço com o meu? Isso atende às minhas necessidades? Das mais íntimas e específicas às mais sociais e vulgares? Aonde as escolhas que eu faço hoje me levarão amanhã? As coisas que dou importância hoje e que tomam a maior parte do meu tempo são as mais importantes para mim?

Observando meus amigos eu percebi que pessoas maravilhosas e que eram bem equilibradas passaram, num prazo curto, a serem medicadas por causa de distúrbios psiquiátricos, sendo o campeão de diagnósticos o Distúrbio Bipolar. Por serem muitos conhecidos, e alguns amigos, eu descartei a possibilidade de toda uma gama de médicos estarem errados. Alguns podem estar, mas todos? Claro que não é impossível que haja alguma cultura recente entre esses especialistas da medicina que todos os seres humanos precisem de psicotrópicos. Mas entre o surto coletivo de Alienistas de Machado de Assis e a razão da probabilidade, decidi ter fé na segunda.

Eliminado, então, o erro médico em massa da equação, restou-me olhar para os meus conhecidos e observá-los. Percebi que suas vidas estavam indo pro buraco, exatamente como a vaca vai para o brejo. Eles estavam extremamente pressionados na universidade e/ou no trabalho, com problemas familiares e amorosos. Mas esses mesmos problemas se amenizavam nos fins de semana sendo que a única mudança é que não havia trabalho ou universidade.

Comecei, então a observar a rotina durante a semana dessas pessoas. Era sempre corrida. Dormindo menos de oito horas por dia, sem tempo de se alimentarem direito, sem diversão, sem momentos de intimidade com outras pessoas e com ela mesma. Era uma doação ao sistema de forma que não vale a pena. Não vale porque não vale mesmo! Eram escolhas feitas por elas que não as atendiam.

Quando se fala sobre modo de vida sustentável, fala-se sobre como prezervar o meio-ambiente, produzindo menos lixo e priorizando culturas sem agrotóxicos, as culturas orgâncias. Fala-se de academias: malhar é a moda do momento há uns 10 anos. Mas muito pouco fala-se sobre o que importa.

Quando eu penso sobre modo de vida sustentável, eu penso em um modo de vida que me permita viver até meus 90 anos (não sei porque, mas acredito que morrerei com 88) de forma saudável, envelhecendo bem e feliz, lúcido e indo com minha esposa a bailes da terceira idade até o meu último dia. É claro que uma dieta saudável e exercícios físicos fazem parte disso, bem como a sustentabilidade do meio-ambiente, pois quero que daqui 60 anos haja um mundo para que eu viva e o curta. Mas o que eu percebo que vai me dar isso mesmo é minha mudança de foco para a sustentabilidade do meu próprio corpo e da minha psiquê. É insistentável trabalhar 10 horas TODOS os dias. É insustentável deixar de ver quem eu gosto ou desmarcar um compromisso pessoal em virtude de um compromisso de trabalho pra atender a um chefe ou um cliente desorganizado. É insustentável me frustrar afetiva ou amorosamente em nome de uma empresa que nem minha é, para gerar riqueza para outro. E se fosse minha, é insustentável à minha visão de ser humano dar mais valor àquilo que não passa de vidro e metal do na vida é prazer e bem-viver.

Modo de vida sustentável para mim é frear a loucura da vida contemporânea. É parar todo dia por uns 20 minutos para fazer nada, ou melhor, para meditar. É praticar o ócio crativo. É Comer com calma e com o celular desligado. É sorrir e falar bom dia, mesmo que o meu dia não esteja bom. É não tentar ser Atlas e me permitir ser forte o suficiente para chorar no colo dos amigos quando for necessário. E não ser babaca de não oferecer meu colo quando meus amigos precisam. É ao telefonema de um amigo se colocar à disposição de matar a prova pra ir conversar com ele pelo simples motivo de que ele precisa (a agradecê-lo por dizer que você deve fazer a prova e, então, ir). Sustentabilidade é sair de casa às 11 da noite pra ir pra casa de um amigo cujo pai falesceu, sem se preocupar como estará para trabalhar no outro dia. Sustentabilidade é aceitar todos os seres indiscriminadamente e combater todo e qualquer tipo de preconceito e discriminação. Sustentabilidade é viver a plenitude da vida, aceitando seu trabalho como forma de interferência política no mundo, usando-o para melhorar efetivamente a sua vida e a de outras pessoas, mas sem se anular enquanto ser humano. Sustentabilidade é dizer ao seu trabalho e ao seu estudo que você é mais que um robô senciente ou um número de matrícula.

Sustentabilidade é, enfim, uma maneira de viver bem e feliz, consigo mesmo e com os outros, aliando sua prática ao seu discurso, sem atrapalhar aos outros e, sempre que possível ajudando-os, protegendo sua casa de si mesmo, ou seja, seu planeta de seus próprios abusos, percebendo em cada ser vivo um igual, com direito à vida e à dignidade, mantendo suas duas únicas posses verdadeiras, seu corpo e sua palavra, em bom estado e confiáveis, convivendo com pessoas e fazendo parte de grupos cujos você apóie e que também te apóiem.

Então, amigos, é isso. Olhem para a própria vida e observem se, na prática, vocês estão priorizando o que lhes é realmente importante, tanto no tempo quanto no esforço demandado. E se não estiverem, tenham certeza de alguns direitos seus:

Todo mundo tem o direito à felicidade.
Todo mundo tem o direito de começar.
Todo mundo tem o direito de desistir.
Todo mundo tem o direito de mudar.
Todo mundo tem o direito de recomeçar.
Todo mundo tem o direito à felicidade.

Vivam, por favor, bem e felizes!

Belo Horizonte, 8 de agosto de 2008.
Postar um comentário