segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Sobre Filosofia e dia-a-dia

Quase sempre que eu falo que estudei 1,5 ano de Filosofia na UFMG ou que uma das áreas da Letras que mais me agrada é a Filosofia da Linguagem, eu ouço que "filosofia é complicada" ou "filosofia é difícil". E eu sempre discordo disso.

O leitor leigo pode dizer que eu discordo porque eu estudei, e tive tempo para debater todos aqueles filósofos com nomes difíceis, como Nietzsche, Schopenhauer e Wittgenstein. E que aprendi o suficiente para lê-los no original. Mas é aí que se enganam. Ler filósofos antigos não é filosofia, mas história da filosofia. Eu acho certos temas abordados por alguns filósofos, e a forma como eles abordam, interessantes. Mas como um todo, encontramos pérolas da chatice universal, como dizia Paulo Margutti, professor de Lógica Formal da UFMG no ido ano 2000.

Porém, é preciso perceber que filosofia é uma prática reflexiva, e que não se resume aos "grandes temas" do estudo acadêmico da disciplina. Qualquer tipo de observação do mundo seguida, imediatamente ou não, de uma reflexão crítica lógica é uma prática filosfófica. Desde o olhar de uma criança frente à imensidão do mar até a reflexão mais profunda de um filósofo sobre estética ou metafísica: tudo é tema da filosofia e tudo o que é reflexão crítica lógica é filosofia, sim.

Independe do conhecimento dos cânones como Russel ou Aristóteles. Independe de idade ou gênero. Independe de instrução formal. Independe de ética. Independe de etnia. Independe de qualquer fator que não seja a capacidade da reflexão lógica.

Aliás, muito do que temos como ditados populares são frases de filósofos cânones. "O que não me mata me torna mais forte" é Nietzsche e "a beleza está nos olhos de quem a vê" é a simplificação de um conceito de Kant. Isso significa que filosofia está no nosso dia-a-dia sem que percebamos.

E, sem que percebamos, fazemos cálculos lógicos complexos, e acertamos na maioria das vezes. Falamos que o sistema de transporte coletivo é ruim, damos os motivos, sugerimos modificações e explanamos o porque dessa modificações e, às vezes, como e onde fazê-las. E isso tudo com o estranho que, por um acaso, está sentado ao seu lado em um ônibus lotado parado no engarrafamento nosso de cada dia. Por menos que pareça, isso não passa de prática filosófica aplicada ao dia-a-dia.

E todas as sugestões advindas de nossa reflexão sobre nossa experiência profissional de como melhorar o serviço que não temos coragem de contar ao chefe, mas comentamos com o colega e descobrimos que ele concorda e que já pensava exatamente aquilo? Prática filosófica sobre nosso trabalho.

E assim vai uma infindável lista de filosofia aplicada que fazemos no nosso dia-a-dia, e que fazemos desde o momento em que adquirimos uma língua.

Dominar um dos grande temas da filosofia acadêmica talvez seja complicado, mas não mais que o domínio de um marceneiro experiente sobre a madeira: ambos são resultados de dedicação. Filosofia não é complicada ou difícil. Filosofia é uma prática humana recorrente e permanente a todos os seres humanos. E mais vulgar do que supõe nosso vão senso comum.

Belo Horizonte, 8 de agosto de 2008.
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