terça-feira, 28 de julho de 2009

Álcool, Escotismo e Educação

Esse post é o terceiro (e provavelmente o último) de uma série que começou com "Álcool, Escotismo e Alienação de Direitos". Nele eu versarei sobre os malefícios da proibição do ponto de vista educacional, uma vez que todas as instituições escoteiras, filiadas às WOSM ou à WFIS ou não filiada a uma dessas são instituições educacionais.

O escotismo, como concebido por Baden-Powell, seu fundador, é uma prática de vida. O objetivo do movimento escoteiro é educar os jovens que se voluntatiarem a isso a viver de acordo com essa prática de vida. Para aqueles que lêem inglês, muito pode ser procurado no site da WOSM (World Organization of Scout Movement) ou da WFIS (World Federation of Independent Scouts). Para os que não falam, podem procurar no site da UEB (União dos Escoteiros do Brasil) ou da AEBP (Associação Escoteira Baden-Powell).

Apesar de algumas diferenças, o que a WOSM e a WFIS têm em comum é o seguir de algumas premissas criadas pelo fundador Baden-Powell. Elas são a promessa, a lei e o método escoteiro. A promessa representa a aderência voluntária ao código ético do escotismo. A esse código damos o nome de Lei Escoteira. O método escoteiro é o processo que utilizamos em nossa jornada de educadores para sensibilizar o jovem sobre questões inerentes à promessa, à lei escoteira e ao mundo que o cerca. No post "Promessa e Lei Escoteira - Um texto sobre tradução". Sobre o método, pesquise em um dos sites das instituições. não é objetivo desse post explaná-lo.

Enquanto educador dentro do movimento escoteiro, sempre filiado à UEB, eu me especializei no trabalho com jovens de 18 a 21 anos completos. Exatamente a faixa etária do evento no qual participantes foram expulsos. Dentro do que eu consigo conceber como educação, a proibição nunca foi educação. A única coisa que ela foi, é, e será é proibição.

Proudhon, anarquista francês, dizia que "anarquia é ordem". Muitos podem se perguntar como um sistema sem estado pode ser ordem? A questão aí é que a sociedade chegou a um grau tal de conscientização e organização que o estado simplesmente se torna desnecessário. apenas temos leis que nos proíbem de fazer coisas porque não fomos sensibilizados o suficiente em nossa educação para convivermos pacificamente. Ainda baseamos nossa sociedade no uso da força e, portanto, necessitamos de um estado. Mais do que não sermos sensibilizados o suficiente para conviver, e aqui vale um pleonasmo, conviver com o outro, não somos sensibilizados o suficiente para convivermos conosco mesmos.

Nos esforçamos tanto para atingir nossos objetivos exclusivistas que passamos por cima do outro. Geramos sofrimento físico, sentimental e espiritual no mundo. Fome, dor e cólera, diria um budista. Por isso o escotismo é educação moral: porque trabalhamos 6 áreas do desenvolvimento humano (intelectual, caráter, afetivo, espiritual, físico e social) de uma forma não-impositiva, mas através de jogos, dinâmicas e outras atividades onde a participação é voluntária e que são pensadas para sensibilizar o ser humano. Muita coisa está presente e pensada ali. Nem sempre atingimos o objetivo. Muitas vezes apenas plantamos uma semente que eclodirá anos mais tarde.

Pensando nisso tudo, vejo que se chegamos ao ponto, enquanto instituição, de acreditar que a privação de direitos constituídos é a forma que nos resta de educar, é porque aceitamos nossa falha em algum lugar. Aceitar a falha não é ruim. Faz parte do autoconhecimento e do crescimento de qualquer ser humano e de qualquer instituição. O grande problema é não nos trabalharmos para oferecer nesse ponto uma sensibilização melhor. Nesse caso em específico é o álcool.

A existência de uma norma que proíba o consumo em momentos nos quais o é permitido siginifica nossa completa falha ao lidarmos com o tema. Falhamos na sensibilização e, pior, falhamos mais uma vez em alienar o direito constituído de cidadãos.

O trabalho do escotista e do dirigente de formação (na UEB, o primeiro é o educador e o segundo é o educador do educador) é de orientar, conversar, demonstrar as opções, as possibildiades, aonde elas podem levar, os prós e os contras de cada uma, seja de forma direta ou indireta, e, assim, contribuir para a formaçã odo educando sensibilizando-o para a fragilidade de sua própria estada nessa existência e da dos que o cercam.

Lidar com a questão do álcool é sempre complicado, pois é uma droga lícita e extremamente arraigada nos costumes brasileiros. Futebol, churrasco, reuniões de família, de amigos, comemorações, choradeiras, reencontros e despedidas: essas e inúmeras outras situações são comumente regadas a algum tipo de bebida alcoólica. Alguns dos bebentes não são alcoólatras. Muitos são e não se dão conta disso, mesmo quando o vício os atrapalha a vida, seja com idas à delegacia por confusões ou por uma ressaca no dia seguinte, que o impede de ir bem no trabalho constantemente.

Alerto uma coisa: o alcoólatra não é só o "bêbado do pé inchado". É aquele que efetivamente não consegue ficar sem beber ou para quem é impossível conceber diversão na ausência da droga. Eu sou alcoólatra. Nunca arrumei confusão e era até bem comportadinho. Mas bebia muito e sempre. Quando entendi que a única forma de controle para mim era não beber, parei. E isso faz pouco mais de dois anos. E me orgulho disso.

Aqueles que são alcoólatras devem ser encaminhados a serviços de ajuda, coletivos (como o AA) ou não, e tratados. No que, aliás, devem ser voluntários. Para os que não o são, o consumo da droga não trás problemas. Como droga lícita, deve ser permitido sempre que não gerar riscos. Se alguém beber antes de uma atividade de escalada, ele deve ser impedido de escalar. Se ele insistir, há leis que permitem o acionamento das autoridades competentes. Não cabe à UEB proibir. Cabe a ela fazer valer os direitos e deveres, e o organizador da atividade tem o dever de não ser negligente permitindo o sujeito alcolizado de realizar certas atividades, pois o organizador pode responder civil e criminalmente por problemas.

Voltando à educação, o que o jovem e o adulto da UEB parece carecer é de orientação, não de mais normas, regras e punições. Basta lembrar da obra de Baden-Powell: Educação pelo amor em substituição à educação pelo medo. Se agirmos com carinho, compaixão e orientação seremos escoteiros melhores a cada dia.
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