segunda-feira, 11 de junho de 2012

Diferença entre Teologia, Filosofia e Ciência

É muito comum não se entender a diferença entre Teologia, Filosofia e Ciência, colocando tudo no mesmo balaio, ou tentando determinar uma como maior que a outra, mas sem argumentos com qualquer sustentação, tentando provar que uma é superior à outra per se.

A real diferença entre os três sistemas não é de onde eles vem ou da fé, mas da estrutura que é utilizada para chegar às conclusões. Para falar de conclusões é necessário determinar como se chega a uma, e o campo que estuda isso é a Filosofia, mais especificamente na área da Lógica.

Para não ficar enfadonho ou grande demais, usarei aqui o Silogismo Aristotélico, uma das formas mais simples da Lógica Fomal. Utilizarei apenas 3 termos: Premissa, Inferência Lógica, e Conclusão.

Significados Simplificados:
 - Premissa são as afirmações (positivas ou negativas) das quais se inicia o cálculo lógico, e seus atributos são verdadeiro e falso.
 - Inferência Lógica é o cálculo lógico propriamente dito, e seus atributos são válido e inválido.
 - Conclusão é a afirmação (positiva ou negativa) resultante do cálculo lógico consideradas as premissas, e seus atributos são verdadeiro e falso.

A estrutura básica de um Silogismo Aristotélico é:

Premissa Geral
Premissa Específica
Inferência Lógica
Conclusão

O exemplo mais usado é o que se segue:

Todo homem é mortal. (Premissa Geral)
Sócrates é homem. (Premissa Específica)
-------------------------------- (Inferência Lógica)
Logo, Sócrates é mortal. (Conclusão)

O estudo da lógica está tanto na veracidade das premissas, quanto na validade do cálculo lógica e, consequentemente, na veracidade da conclusão.

Assim, se a premissa é falsa, ou não pode ser verificada, ainda é possível verificar a validade da inferência lógica. Por exemplo, no seguinte silogismo,

Todo inseto tem 4 patas. (Premissa Geral - FALSA)
O besouro é um inseto. (Premissa Específica - VERDADEIRA)
-------------------------------- (Inferência Lógica - VÁLIDA)
Logo, o besouro tem 4 patas. (Conclusão - FALSA)

Temos que a inferência lógica é verdadeira, mas a conclusão falsa devido à não veracidade de uma premissa. Da mesma forma, em:

Todo inseto tem 4 patas. (Premissa Geral - FALSA)
O besouro é um inseto. (Premissa Específica - VERDADEIRA)
-------------------------------- (Inferência Lógica - INVÁLIDA)
Logo, o besouro tem 6 patas. (Conclusão - VERDADEIRA)

Vê-se que um erro na inferência lógica pode gerar qualquer um resultado verdadeiro, mas também pode gerar um falso, como em:


Todo inseto tem 4 patas. (Premissa Geral - FALSA)
O besouro é um inseto. (Premissa Específica - VERDADEIRA)
-------------------------------- (Inferência Lógica - INVÁLIDA)
Logo, o besouro tem 8 patas. (Conclusão - FALSA)

Mas qual a relação disso com a Teologia, a Filosofia e a Ciência? A relação é o que cada uma exige para ser aceita pelos seus pares. Veja a tabela que se segue:


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COMPROVAÇÃO DE PREMISSA
INFERÊNCIA LÓGICA VÁLIDA
TEOLOGIA
NÃO EXIGE
NÃO EXIGE
FILOSOFIA
NÃO EXIGE
EXIGE
CIÊNCIA
EXIGE
EXIGE


E essa é a grande diferença: a exigência necessária para ser aceita pelos pares. É por isso que, muitas vezes, estudiosos dos três não se entendem. O filósofo e o cientista exigem cálculos lógicos válidos sempre, e uma inferência lógica inválida, em qualquer nível, invalida a conclusão final até que ela seja consertada. Filósofos que gostam de trabalhar com premissas comprovadas tendem a trabalhar com premissas negativas de coisas que já foram provadas falsas. É importante notar que não há proibição de se trabalhar teologia com premissas comprovadas e/ou inferências lógicas válidas, ou filosofia com premissas comprovadas, mas que isso não é exigido pelos pares que farão a crítica e validarão o argumento. No caso da Filosofia, vale lembrar, também, que a premissa, apesar de não precisar ser comprovadamente verdadeira, ela não pode ser comprovadamente falsa.

Isso também gera em quem exige inferências lógicas válidas uma repulsa a vários argumentos religiosos, mas não necessariamente uma repulsa à religião. Religião é baseada em fé, não em lógica, e na maioria das vezes que se envereda pelos campos da lógica, tende a não se adaptar e não demonstrar o que queria, pois tal demonstração só é possível pela fé, não pela lógica, isso porque ou parte de premissas sabidamente falsas, ou uma inferência lógica válida chega a uma conclusão contrária ou incompatível da pretendida ou há uma ruptura proposital da premissa em função de favorecer uma argumento. Um bom exemplo disso é uma parte do Argumento Cosmológico de São Tomáz de Aquino.

Diz ele que tudo o que existe tem uma causa, logo o universo tem uma causa e se toda a relação de causalidade for levada ao início e toda a cadeia de causa-consequência for explorada chegar-se-á à causa primeira de tudo, a qual não teve uma causa, e à qual São Tomás de Aquino chama de deus. Ou seja, o argumento causa-consequência vale para tudo, EXCETO para o que ele quer provar. O problema desse argumento é que ele torna falsa a premissa de que tudo tem uma causa, uma vez que deus não tem uma. Pela filosofia, ou tudo tem uma causa, e deus tem uma, ou quase tudo tem uma causa, e deus pode não ter uma, assim como o universo também pode não ter uma. Nenhum tipo de lógica, desde o silogismo aristotélico mais simples até as mais complexas lógicas simbólicas, aceita esse tipo de exceção a uma premissa.

Assim, antes de misturar as coisas e chamar teologia de filosofia ou filosofia de ciência, é importante pensar: o argumento preenche os requisitos necessários para ser validado pelos pares?
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