quarta-feira, 13 de junho de 2012

O que é Ciência?

Muitas pessoas não entendem o que é ciência, a confundindo com religião, filosofia ou senso comum. Em sua estrutura mais básica, no que tange à lógica, já diferenciei ciência de filosofia e teologia no post Diferença entre Teologia, Filosofia e Ciência. Então hoje cuidarei de outras questões.

A primeira delas é que não existe "A CIÊNCIA", um ente eterno e imutável que luta contra "A FILOSOFIA" e "DEUS". Fazer qualquer alusão a ciência enquanto um ente e oferecer a ela qualquer característica humana (como em "a ciência é inimiga da religião") é um erro grave. Dito isso, seguirei.

A definição mais clássica e simples de ciência é que é um sistema de conhecimento humano metódico organizado. Mas se é assim, o que a separa da filosofia e da teologia? Quero dizer, além das questões da lógicas já explicadas no post anterior, o que a separa?

É o método. Ciência é o próprio método científico e os trabalhos científicos são aqueles cujo método é científico. E aí fica a pergunta: e quais são os elementos fundamentais desse tal método científico? São eles:

1) Observação de um Fato
2) Elaboração de uma Hipótese
3) Planejamento e Execução de um Experimento
4) Análise dos Dados Coletados Durante o Experimento
5) Conclusão do Trabalho

Note que, ao contrário da teologia e da filosofia, o método científico (doravante ciência) exige que, para a elaboração de um trabalho científico, haja um fato observável. Por fato observável é entendido algo que pode ser mensurável em qualquer escala e em qualquer unidade, mesmo que nós, humanos, não consigamos reproduzi-lo ou armazená-lo.

Uma vez o fato observado, é necessário elaborar uma hipótese que vise descrever uma, algumas ou todas as facetas do fato, por exemplo, que vise explicar o como ou o porque do fato. Grandes teorias podem possuir mais de um fato observado e mais de uma hipótese e, normalmente, os possuem.

Se há um fato e há uma, ou mais, hipótese, faz-se necessário comprovar essa hipótese. É para isso que serve o experimento. Cada experimento possui uma metodologia própria, voltada para o estudo de um fato específico utilizando a tecnologia disponível, desenvolvível e/ou fabricável. Os dois principais elementos da metodologia de uma experimento científico são a capacidade de gerar e coletar dados relevantes para a comprovação ou reprovação da hipótese E a reprodutibilidade do experimento de forma que, uma vez seguidos os mesmos passos, chegue-se nos mesmos resultados (ou suficientemente aproximados dentro dos parâmetros probabilísticos).

Agora que já se observou o fato, elaborou a hipótese e executou o experimento, possui-se uma gama de dados disponíveis para a análise. Esses dados devem sempre ser analisados em confrontados com a hipótese, de forma que eles deem apoio à mesma ou a derrubem. Essa análise deve ser criteriosa desde o início, e a primeira seleção dos dados a serem analisados (sim, é comum gerar dados relevantes para a hipótese e outros irrelevantes para ela, mas que podem ser relevantes para uma outra hipótese a ser estudada posteriormente) e a relação lógica deles com a hipótese.

Após a análise, é necessário discorrer sobre a hipótese novamente. Ela foi comprovada? Foi refutada? Foi parcialmente comprovada? E o trabalho sobre essa hipótese fecha o assunto, ou permite que trabalhos futuros elaborem melhor o tema? É bom sempre lembrar-se que, a menos que você seja do nível do Stephen Hawking, seu objetivo não é fazer uma brilhante conclusão que mude a visão que a humanidade tem do mundo, mas apenas fazer um desfecho viável para o trabalho considerando as etapas anteriores e reunindo-as na conclusão.

Se observarmos isso tudo, percebe-se que deus não é um fato aos olhos da ciência, pois ele não é mensurável. Ao contrário, a definição clássica do deus abraâmico é a eternidade e a infinitude em tudo, logo, não mensurável. A ciência não comprova ou refuta deus pelo simples motivo que não o estuda. Da mesma forma, qualquer "experiência pessoal" não mensurável não pode ser estudada. Por que? Não é mensurável.

Há, na ciência, hipóteses não comprovadas ou refutadas por falta de tecnologia para realizar o experimento. Até que se possua tal tecnologia, a fase científica fica estagnada ao final da elaboração da hipótese ou no planejamento do experimento sem poder-se dar uma conclusão em relação à hipótese (uma, algumas ou todas) por não haver dados a serem analisados. Qualquer conclusão a uma hipótese sem experimento é, se as inferências lógicas forem válidas, uma conclusão filosófica. Possui, certamente, seu valor; mas não é científica.
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